O lado heroico do vilão, interpretado por Joaquin Phoenix, é veementemente negado, mesmo quando aparece sua fã Lee Quinzel, que tem Lady Gaga no papel (Warner Bros/Divulgação) O ano é 2019. O filme Coringa, inspirado no principal vilão do universo do super-herói Batman, se torna um sucesso de público e de crítica, rende um Oscar para o ator Joaquin Phoenix e passa de US\$ 1 bilhão nas bilheterias. Corta para 2024, estreia de Coringa - Delírio a Dois, a esperada continuação do clássico: salas de cinema vazias, bilheterias muito abaixo do esperado, fãs protestando. A explicação para Coringa 2 ser massacrado por fãs e críticos está justamente em tudo o que aconteceu na “vida real” entre o primeiro e o segundo filme. Apesar de ser muito claro em sua mensagem, o primeiro filme do Coringa foi, como já virou regra, mal interpretado. Tornou-se referência para grupos radicais e para os red-pills, grupos misóge-nos e machistas que acreditam e professam a superioridade masculina. O diretor do filme, Todd Phillips, ficou mortificado com o uso equivocado de sua obra para justificar uma série de violências. Ele dedicou a continuação, então, a negar de forma veemente o lado heroico do vilão e a mostrá-lo como ele realmente era: um homem perdido, encarcerado não apenas em uma penitenciária psiquiátrica mas em sua própria mente perturbada, como uma resposta muito incisiva aos fãs radicais da vida real: não existe Coringa, existe o Arthur, triste, criminoso, perturbado, traumatizado e fraco. É neste contexto que encontramos, nas primeiras cenas, Arthur completamente dominado na penitenciária. Medicado quase ao ponto de ser um zumbi, ridicularizado pelos guardas e na iminência de ser julgado pelos cinco assassinatos que cometeu no primeiro filme. Não há nada de grande em sua figura nem em suas ações, repetidas dia após dia. Quando ele conhece uma outra paciente psiquiátrica internada no lugar, Lee Quinzel (Lady Gaga), a devoção da moça ao Coringa devolve a Arthur a autoestima perdida e o motiva a lutar não apenas para ser inocentado mas para liderar o movimento popular nascido a partir de suas ações. Ele está, obviamente, sendo usado por forças que desconhece, a começar pela própria Harley, que o aconselha a não tomar mais o remédio e a dispensar sua advogada, o que ele faz no meio do julgamento. A história de ambos os filmes é mostrada sob a perspectiva do próprio Arthur Fleck, o protagonista, mas neste segundo filme fica mais óbvio que o que vemos na tela é o delírio de grandeza do próprio personagem e não o que está de fato acontecendo. E por isso a opção por transformar a história em um musical, à moda de La La Land ou Moulin Rouge. Tudo parte da ilusão, mas ainda assim ficou muito divertido ver canções fortes como Ne Me Quitte Pas ou For Once in my Life servindo de canal para traduzir as sensações dos protagonistas. São vários os números de canto e também de dança, numa homenagem meio torta, mas ainda assim muito válida aos clássicos musicais de Hollywood, em especial os de Fred Astaire, que tem uma cena só sua na história. Foi uma decisão corajosa fazer um filme que ofende a inteligência de boa parte dos fãs e que - eles sabiam - não seria compreendido por boa parte do público e da crítica. Um desastre, cujo risco foi assumido quando investiram US\$ 200 milhões em uma visão tão pessoal e polêmica. Ainda assim, dada a importância da mensagem e da desconstrução do vilão como ídolo, perfeitamente justificável. É impossível, também, não fazer um paralelo com o mundo dos influenciadores, que conquistam milhões de fãs apenas para se tornarem reféns da vontade deles, ou da política, especialmente neste momento em que vivemos, que confunde completamente o que é (ou devia ser) sério com entretenimento. Um perigo! Não é um filme fácil de assistir, às vezes a gente se perde no meio da cantoria e da dualidade entre o que vemos e o que imaginamos que esteja acontecendo, mas ainda assim Coringa - Delírio a Dois é um belo filme. Crítico, duro, divertido e realista. Afinal, super-heróis e supervilões não existem fora da imaginação e é bom que todos nós saibamos disso.