Coração de Lutador: The Smashing Machine é um filme desconfortável à primeira vista, que desconstrói o mito de um bicampeão peso pesado de MMA, desvendando toda a sua fragilidade humana, física e emocional. O filme conta a história real de Mark Kerr, um ex-lutador norte-americano de wrestling, vale-tudo e MMA. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Atualmente, Kerr tem 56 anos e está aposentado. Ele foi um dos pioneiros da modalidade de luta MMA nos anos 1990 e graças à sua força notável dentro do octógono ganhou o apelido de The Smashing Machine (A Máquina de Esmagar, em tradução livre). Ao longo de sua carreira, foi bicampeão dos pesos-pesados do UFC, vencedor do torneio World Vale-Tudo Championship e competidor do Pride FC. O filme retrata a fase da carreira de Kerr entre os anos de 1997 e 2000. O diretor e roteirista Benny Safdie (Joias Brutas, 2020) arrisca e foge da fórmula tradicional dos filmes de temática esportiva, que traçam a trajetória ascendente de um atleta ao sucesso. Ao contrário disso, Coração de Lutador narra os altos e baixos de um campeão com uma carreira consolidada, mas que está desmoronando por dentro, cuja pressão por ser invencível é o seu pior e mais forte adversário. A trama foca nos altos e baixos de Mark Kerr fora do octógono. Mostra o lutador recorrendo a analgésicos e opioides para aliviar as fortes dores no corpo, o que o deixou viciado, suas crises psicológicas e o seu relacionamento conturbado com a namorada Dawn Staples, interpretada por Emily Blunt. É Dwayne Johnson, o The Rock, que interpreta Mark Kerr, entregando uma atuação notável e dedicada. Ao contrário de sua imagem exuberante e carismática, ele nos apresenta um homem introspectivo e sofrido, que busca desesperadamente uma saída seja pela reabilitação física para se livrar do vício em analgésicos ou tentando se reconciliar com sua namorada em meio a muitos conflitos. Coube a Emily Blunt o papel de Dawn, ao qual ela interpreta com maestria. Trata-se de uma mulher instável que é o suporte emocional de Kerr, mas que também o provoca, sofre e o pressiona por atenção. Sua Dawn é complexa, dividida, o que traz profundidade à narrativa dramática. No entanto, enquanto o drama se desenrola e para dar um aspecto mais realista, documental e menos fictício à trama, Safdie usa um recurso técnico controverso e incômodo. Nas cenas de maior tensão e conflito de Mark Kerr seja na reabilitação, nos treinos ou nas discussões inflamadas com a mulher, as cenas acabam apresentadas de forma trêmula. As imagens são tremidas e longas para transmitir a sensação de caos do protagonista, mas é desconfortante e cansativo para as vistas. Um ponto visual positivo é o uso de imagens em VHS que ambientam bem a história nos anos 1990. Deixam a desejar também a caracterização e a maquiagem de Johnson para se parecer com Kerr, longe da qualidade que nos acostumamos a ver em cinebiografias. Parece amador. Porém, é clara a reverência e o respeito do diretor ao ex-lutador Mark Kerr ao longo de todo o filme e no seu desfecho. O final não é emocionante, mas presta uma justa homenagem ao ex-atleta que inspirou muitos outros no MMA. A trajetória pessoal e profissional do ex-lutador também é contada no documentário The Smashing Machine: The Life and Times of Extreme Fighter Mark Kerr (The Smashing Machine: A vida e os tempos do lutador extremo Mark Kerr, em tradução livre), dirigido por John Hyams e lançado em 2002. Vá ao cinema! Boa semana!