Discutir a relação, a famosa DR, virou sinônimo de bate-boca, acusação e chatice (FreePik) Conversas difíceis constroem relações fortes. O contrário também é verdade: a falta de diálogo sobre pontos importantes para os envolvidos em uma história torna tudo frágil demais. Eu sempre digo às minhas alunas e aos meus alunos que a comunicação é a cola dos relacionamentos — amorosos, familiares, de amizade, profissionais. É conversando que a gente se entende. E é conversando sobre desconfortos na convivência que esse entendimento ganha estrutura. Discutir a relação, a famosa DR, virou sinônimo de bate-boca, acusação e chatice. Mas isso só acontece se, justamente, a conversa difícil e honesta não ocorreu antes. Culpa de todo mundo, nunca apenas de um lado. De quem se calou diante dos tais desconfortos que viraram uma bola de neve até ser avalanche. De quem acredita que precisa ser compreendido sempre e jamais incomodado porque, afinal, já tem seus problemas para lidar. E quem não tem? Encontros de vida bonitos vão por água abaixo quando limites não são verbalizados ou se dá preferência à superficialidade — nada de se envolver além da mera diversão. Quando as frustrações se acumulam e, enfim, se transformam em discussão acalorada. Que fique registrado: conversas difíceis nunca são sobre desrespeito, gritaria, humilhação e intimidação. O que não pode é esconder sentimentos, sejam quais forem, por medo do conflito, para não pesar a relação. Esconder sentimentos leva a silêncios que afastam — e aí sim a relação pesa. Vínculos são nutridos por transparência, coerência, responsabilidade com o outro e a liberdade de ser quem se é. Amor e afeto não são sobre ser aceito sem precisar falar das nossas necessidades e dos nossos desejos. Por outro lado, a expectativa de que o outro adivinhe o que vai na nossa cabeça e no nosso coração é um equívoco. Assim como exigir reciprocidade milimétrica e não questionamento a cada instante não configura se relacionar, mas querer controlar. A psicanalista Carol Tilkian compartilhou esses dias no Instagram uma reflexão que ajuda a arrematar esse texto aqui: “Falar sobre o que incomoda não destrói as relações, fortalece-as. Enquanto a gente não falar o que incomoda, as chances de incomodar sempre ou a relação acabar são enormes.” Para a especialista, que ministra cursos sobre essa arte que é se relacionar, conversar é validar nossas necessidades, legitimar sentimentos e dar ao outro a chance de nos conhecer de verdade. Vale usar os princípios da Comunicação Não Violenta (CNV) para que o diálogo seja de partilha, não acusação. Relatar fatos sem julgamento, compartilhar como se sentiu diante de uma situação, explicar o que está por trás da frustração e fazer um pedido claro, propondo algo concreto a se fazer para lidar com o aborrecimento. Vencer discussões não deveria ser o objetivo. O encontro só é um espaço possível em que cada um pode demonstrar as vulnerabilidades que carrega, tentando se acertar e não se destruir. Talvez equilíbrio não seja dividir por igual, mas entender quando a outra parte precisa de um pedaço maior naquele dia. Inclui deixar um pouquinho de lado nossas dores individuais para acolher o momento de quem a gente quer bem. P.S.: na letra de Me Adora, a cantora Pitty suplica: “não espere eu ir embora pra perceber”. Então, conversem para ninguém ir embora do que só precisa de troca e sinceridade para funcionar.