(Imagem ilustrativa/Magnific) Mais de quatro horas com dois intervalos de 30 minutos. Narrativa densa, minuciosamente detalhada. O concerto que acompanha a história é um dos mais famosos do mundo, com mais de um século de criação. Os textos cantados são carregados de poesia. Teatro lírico. Um espetáculo que exige concentração - ativo tão comprometido na atualidade. Em tempos de vídeos curtos, com mensagens, opiniões e temas que duram segundos (e são rasos), assistir uma ópera chega a ser disruptivo. Foi o que fiz semana passada. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em curta temporada, o Theatro Municipal de São Paulo, joia arquitetônica projetada por Ramos de Azevedo, Claudio Rossi e Domiziano Rossi, inaugurado em 1911, apresentou a ópera Tristão e Isolda. Clássico dos clássicos. Obra do compositor alemão Richard Wagner, que estreou em 1865, em Munique. Eu já havia assistido trechos de óperas, mas não uma inteira. Baita exercício de sensibilidade quando estamos dessensibilizados pelo excesso de estímulos. A grandiosidade é garantida pela música conduzida pelo maestro e sua orquestra, cujos acordes alternam entre drama, suspense, exaltação, romance e clímax. Os cantores surpreendem o público com a potência de suas vozes, capazes de interpretar alegria, dor, amor, saudade, revolta e tristeza. A legenda em português, reproduzida em tela no alto do palco e traduzindo as letras em alemão, lembra que emoções e sentimentos não têm idioma único. Se eu pesquei? Pesquei. Já lá na metade do terceiro ato. Quase no final. Gostei demais da experiência. O segundo ato em especial. Lindíssimo. Ópera, no entanto, é uma arte mais elaborada do que nos acostumamos a consumir, com outro ritmo, exigindo compreensão aprofundada além do entretenimento para diversão e relaxamento. Não se engane. O teatro lotou. E a diversidade de pessoas presentes era um espetáculo à parte. Todas as idades e estratos sociais. Os ingressos acessíveis ajudam bastante - vale acompanhar a programação no site. Interessante demais observar ao redor e ver gente que não se intimidou. Não achou que “ah, não é programa cultural para mim”. É sim! Estavam lá os casais idosos e os casais jovens. Pessoas curtindo o momento sozinhas e grupos de adolescentes. Famílias, amigos. Teve quem tirou o longo de festa e foi. E também quem foi direto do trabalho com mochila, roupa executiva ou tênis e calça jeans. Iniciantes e iniciados. Um tanto de gente que desejou viver o novo ou reviver o que encanta. Que ficou de olhos vidrados em um palco com luzes discretas e cenário inteligente, porém, minimalista. Tão oposto ao que pula das telas do celular na nossa frente, quase um ataque. Talvez tenham pescado também e até mais do que eu. Ou viajado para longe com a cabeça em coisas como a lista de supermercado. Ainda assim, acredito que ninguém sai dessa vivência sem se ver afetado, com alma remexida. Seja para não voltar nunca mais. Seja para futuramente apreciar outras óperas. Seja para saber que, uau, como é bom ir além do óbvio na vida. Conhecer o que nos amplia é sempre ganho. Eu certamente irei novamente – possivelmente em uma mais curtinha.