Na cheia do rio é possível andar de canoa pelos igapós e se sentir navegando por dentro da Amazônia; à direita a gigante da floresta: árvore sumaúma, com mais de 400 anos. (Fernanda Lopes/AT) Há lugares que nos transformam — e a Floresta Amazônica é um deles. Ficar cercada por uma natureza tão viva e vibrante, onde tudo pulsa, respira, canta, rasteja e observa, é algo difícil de traduzir. Mas vou tentar. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Viajei com minha irmã e minhas sobrinhas, de 5 e 8 anos, para uma das regiões mais preservadas do planeta: o Parque Nacional de Anavilhanas, considerado Patrimônio Natural da Humanidade, no coração do Rio Negro. Localizada no município de Novo Airão, que fica a cerca de 3 horas de carro de Manaus, é o segundo maior arquipélago fluvial do mundo, com cerca de 400 ilhas e 60 lagos. Na seca (de setembro a fevereiro) é possível desfrutar das praias de areias brancas que emergem. Já na cheia (março a agosto) o vislumbre fica por conta das trilhas aquáticas de igapó, que são passeios de barco por dentro das florestas alagadas, um cenário misterioso e de tirar o fôlego, que foi o que presenciei. Ficamos hospedadas no Mirante do Gavião Amazon Lodge, um refúgio de madeira esculpido com muito conforto e respeito à floresta. São apenas 13 bangalôs espalhados pela mata nativa, à beira do Rio Negro e com design inspirado em barcos invertidos, conectados por passarelas elevadas que parecem flutuar entre as árvores. No Restaurante Camu-Camu, no Lodge Mirante do Gavião, a chef Débora Shornik serve pratos com peixes amazônicos (Fernanda Lopes/AT) Logo de cara, a experiência é arrebatadora. O calor úmido, os sons de aves ecoando por todos os lados, e aquele cheiro de terra molhada e de flores, como a famosa dama-da-noite (sim, ela está na floresta e a sentimos de repente, nas trilhas e passeios). O Rio Negro convida para mergulhos e passeios de canoa. Aliás, foi em um desses passeios — feitos nos igapós, a floresta alagada — que a Amazônia nos presenteou com momentos mais mágicos. Os olhos que brilham Além do passeio de canoa de dia, onde cruzamos os igapós, saímos para um passeio noturno de barco pelo rio. As meninas estavam empolgadas. E não para menos. Na companhia dos guias locais da comunidade ribeirinha do Sobrado, que conhecem a floresta como a palma da mão, cruzamos a escuridão apenas com uma lanterna. A forma como eles localizam animais no breu total, apenas pelo brilho dos olhos ou pelo menor dos sons, é impressionante. Vimos corujas, que para as crianças pareciam com a do Harry Potter, preguiças, aranhas de todos os tamanhos, gaviões e — o auge do passeio — muitos jacarés, enormes e filhotes, estes que as meninas puderam tocar sob a supervisão do guia. Corajosas, elas posaram até para foto. Passeio proporciona visita à comunidade ribeirinha do Sobrado, que vive dos recursos da floresta e do turismo sustentável (Fernanda Lopes/AT) Trilhas e mergulhos Durante o dia, exploramos trilhas guiadas pela mata, observando pegadas, conhecendo joias da floresta como o perfumado breu branco ou a andiroba, muito usados na indústria cosmética, e ouvindo histórias da fauna e flora contadas pelos próprios ribeirinhos. No Parque Nacional de Anavilhanas, fomos até a gigante da floresta, uma árvore sumaúma que, segundo o guia, tem mais de 400 anos e 50 metros de altura. Ela lembra a árvore do filme Avatar e ali, como no filme, sentimos a simbiose com a natureza. Também visitamos a comunidade ribeirinha de Sobrado e aprendemos sobre o seu modo de vida utilizando o que a floresta oferece, na produção de farinha e outros insumos da mandioca e também, mais recentemente, o cupulate, bombom feito com cupuaçu. Delicioso. A arquitetura do hotel que se insere à floresta, no Parque Anavilhanas (Fernanda Lopes/AT) A conexão com o entorno é total. Entre um passeio e outro, nadamos no Rio Negro, de águas quentes, escuras e surpreendentemente livres de insetos graças ao pH ácido, que afasta mosquitos. Para as crianças, mergulhar nesse “aquário gigante” foi uma das maiores euforias da viagem. O encontro com os botos-cor-de-rosa é outro ponto inesquecível. As meninas adoraram. Nós também. Novo Airão é um importante centro de proteção aos botos. Parque Anavilhanas é importante à proteção do boto-cor-de-rosa e do boto-tucuxi (Fernanda Lopes/AT) Gastronomia que traduz o território De volta ao hotel, o descanso tem sabor amazônico. O restaurante Camu-Camu, comandado pela chef Débora Shornik, que tem o famoso Restaurante Caxiri, em Manaus, serve pratos que são quase rituais: pirarucu com tucupi, tucunaré ao creme de castanha fresca, além de frutas como taperebá e cupuaçu. Há massas e grelhados, mas, sinceramente, mergulhar nos sabores locais faz parte do encanto. Para guardar no coração (e repetir) Voltamos para casa com histórias no corpo e na alma. Com os olhos mais atentos ao movimento das aves, com um vocabulário novo — gavião-real, caburé, igapó — e com o coração mais leve. Ver minhas sobrinhas se encantarem com a natureza, respeitarem os ciclos e se aventurarem com curiosidade e entrega foi um presente. Viajar para a Amazônia é mais do que uma viagem. É uma redescoberta com a nossa essência.