Longa retrata o rito secreto da eleição papal, costurando uma rede de conspirações, intrigas, trapaças, conchavos e até compra de votos (Divulgação) Tal qual um jogo de xadrez, em que cada movimento estratégico é crucial para vencer o desafio, o roteiro do filme Conclave segue um rito dinâmico num thriller psicológico sobre as fraquezas humanas. O enredo impõe, de forma subliminar, a reflexão: quem merece o posto de papa na Santa Sé, o santo ou o ímpio, que prega, mas não vive os mandamentos de Deus? Nesse tabuleiro ilustrado com a escolha do novo papa, o diretor alemão Edward Berger, vencedor do Oscar de Filme Internacional com Nada de Novo no Front, em 2023, mostra o homem por trás da batina, com vícios, dores, crises e ambições. Sugere sutilmente pecados capitais como a soberba, a luxúria e a inveja minando o bom senso, a ética, o escrúpulo e o compromisso religioso. Tudo em nome da ganância pelo poder conferido ao sumo pontífice. A trama de ficção, adaptada do livro homônimo do romancista britânico Robert Harris, de 2016, retrata o rito secreto da eleição papal, costurando uma rede de conspirações, intrigas, trapaças, conchavos e até compra de votos entre cardeais candidatos e apoiadores. Mas, cabe ao cardeal decano Thomas Lawrence, interpretado pelo ator Ralph Fiennes (O Paciente Inglês), evitar, com perspicácia e justiça, que ascenda ao papado um cardeal de moral e conduta reprováveis. Assim, os chamados ímpios vão caindo um a um, como peças num jogo de xadrez. Ainda no elenco, estrelas como Stanley Tucci, John Lithgow e Isabella Rossellini representam, com maestria, esse conto que põe em xeque a tradição, a fé e o futuro da Igreja Católica num pleito eleitoral acirrado, que tem perfis típicos da política como o conservador, o liberal, o progressista e o reacionário. Conclave concorre a oito prêmios no Oscar: Filme, Ator (Fiennes), Atriz Coadjuvante (Rosselini), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Design de Produção e Edição. O filme prima também pela trilha sonora dramática do compositor Volker Bertelmann, pela direção de arte que valoriza as suntuosas locações de Roma em plano aberto e coloca os personagens em proporção bem menor nas cenas, ilustrando que a ambição negativa apequena o homem perante a Igreja. O texto sagaz, as posições dos cardeais em cenas diversas que remetem às peças em um tabuleiro de xadrez e a construção fidedigna da Capela Sistina revelam a grandeza desse longa-metragem. Conclave encerra com um desfecho polêmico para uns, mas cristão para outros, consolidado com a emissão da fumaça branca. Obra-prima!