(Divulgação) Para se fazer presente todos os dias nas casas de milhões de brasileiros com a personagem Natara em Dona de Mim, novela das sete da TV Globo, a atriz, jornalista e comunicadora Carol Marra quebrou incontáveis barreiras. Apaixonada por comunicação, ela foi a primeira modelo trans a desfilar nas principais passarelas e teve seu rosto em grandes campanhas publicitárias. Na dramaturgia, coleciona participações em novelas, filmes e séries. Além disso, sempre se empenhou na defesa da comunidade LGBTQIA+. Ao domingo+, ela falou sobre carreira, preconceito e o sonho de viver em um Brasil “sem medo, com amor, respeito e liberdade”. Como você fez a transição do jornalismo para o mundo da moda e depois para ser atriz? Comecei no jornalismo e meu maior desejo era ser editora de uma revista de moda ou produtora de TV/cinema. Trabalhei na TV Cultura e TV Globo, depois foram mais dez anos produzindo capas de revistas com várias atrizes no Rio. Mas acabei tomando a decisão de abandonar para investir na moda, que era meu grande sonho e vocação. Estava fazendo isso até ser convidada para desfilar. Nem imaginava ser modelo, foi um convite inusitado. Nessa época não tinham modelos trans, só havia eu e a Lea T. Essa oportunidade me abriu portas e abracei aquilo com muito amor. Eu colecionava revistas para ter material de pesquisa e, de repente, via minha foto estampada nas páginas. Tempos depois, isso me abriu portas no audiovisual e fui convidada para participar da série PSI, da HBO. No set de filmagem, descobri que aquilo era o que eu queria: emprestar meu corpo para personagens que contassem histórias. Alguma vez passou pela sua cabeça, desde a infância, que você estaria em uma novela das sete da Globo como Dona de Mim? Sempre fui noveleira. Desde criança assistia novelas com minha mãe e dizia para ela: “Um dia vou estar dentro daquela caixinha” e quem diria que hoje estou (risos). É muito emocionante poder estar novamente em uma novela. Sou apaixonada por esse gênero. Acho instigante, viciante e muito gostoso de acompanhar. É um privilégio estar na TV Globo, fazendo uma novela linda com tanta representatividade, com um elenco diverso e talentoso. Tem sido uma experiência maravilhosa, um aprendizado diário, e me sinto honrada em dar vida a Natara. Por falar em Dona de Mim, há algo de Natara em sua personalidade ou trata-se de uma personagem totalmente diferente do que você é em sua essência? A Natara é muito diferente da Carol Marra do dia a dia. Ela é mais dura e rígida, especialmente no ambiente de trabalho, porque lidera um setor que exige muita atenção e perfeição. Ela é enérgica e às vezes meio chata inclusive, ao contrário da Carol. Costumo dizer que quem tem a honra e o privilégio de conhecer a Carol Marra no off sabe que sou uma pessoa coração aberto, engraçada, divertida, leve, brincalhona, uma alma feliz. Mas, ao mesmo tempo, eu e a Natara temos algo em comum: a força, garra e vontade de conquistar nosso espaço com dignidade e muito trabalho. Assim como a Natara, também venho de uma realidade de desafios e precisei enfrentar muitas barreiras para não fazer parte das estatísticas que, infelizmente, ainda atingem muitas mulheres trans no Brasil. Estamos no mês do orgulho LGBTQIA+ e você foi a primeira modelo trans a desfilar nas passarelas da alta costura. Como foi lidar com o preconceito? Foi muito difícil. Quando comecei, praticamente não existiam modelos trans nas passarelas. Me sentia, muitas vezes, como uma atração de circo, porque as pessoas não estavam “acostumadas”. Era um outro olhar para os nossos corpos, existia uma curiosidade, até porque a maioria não ocupava aqueles espaços. Isso me incomodava muito, porque queria ser vista e tratada como qualquer outra modelo e não como alguém diferente. Sofri preconceito na época. Já chegaram a sumir com minha roupa depois de desfilar, colocar alfinete no meu sapato e até ser retirada de desfiles só por ser uma mulher trans. O mais triste é que isso acontecia dentro de um meio onde existem muitas pessoas LGBTQIA+, o que mostra que o preconceito também pode existir dentro da própria comunidade. Mas, apesar da dor, entendi que ocupar aquele espaço não era só por mim, eram por todas as outras meninas que, assim como eu, sonham, mas não têm oportunidades. Sabia que estando lá, estava abrindo portas para que outras pudessem caminhar com mais leveza e menos dor. Foi um ato de resistência e hoje sinto muito orgulho de ter feito parte dessa transformação. Como ficou a relação com a família antes e depois de sua cirurgia de transição de gênero, em 2017? Minha relação com a família, graças a Deus, é muito boa. Claro que, no início, não foi fácil. A gente está falando de 20, 25 anos atrás, quando esse assunto era um tabu. Meus pais me falavam: “Me ajuda a te entender para que a gente possa te ajudar”. Eles tinham essa dificuldade em compreender, mas nunca me rejeitaram. Tive o privilégio de ter uma família que me acolheu, me permitiu estudar, fazer faculdade e ter estrutura, o que infelizmente não é a realidade da maioria das meninas trans no Brasil. A cirurgia foi para mim muito mais que uma afirmação pessoal, algo que desejava para me sentir plena no meu corpo. Minha família esteve comigo nesse processo. Hoje a relação é muito melhor, baseada no amor, diálogo e respeito. Qual mensagem você deixa a quem sofre com o preconceito hoje em dia? E a quem perpetua esse tipo de postura, o que você tem a dizer? Para quem sofre com preconceito, digo: não desista de você, da sua verdade e essência. O amor próprio precisa ser o nosso maior aliado e ferramenta de resistência. Seja fiel a quem você é, estude, se prepare e não aceite migalhas de ninguém. A vida vale a pena quando você vive na sua verdade e sendo quem você realmente é. A quem ainda perpetua o preconceito, só posso dizer: olhe para o outro com mais empatia e amor. O que o outro faz da vida, quem ele ama, como se veste ou se identifica, não te diz respeito. O mundo precisa de mais amor e menos julgamento. Como formada em Jornalismo, qual manchete você gostaria de ver estampada em relação à luta LGBTQIA+? Acho que as manchetes que mais gostaria de ver seriam: “Brasil deixa de ser o país que mais mata pessoas trans no mundo” e “Pessoas trans conquistam espaço na política, na mídia e no mercado de trabalho com respeito, dignidade e oportunidades iguais”. Isso, para mim, seria revolucionário, o reflexo de uma sociedade que finalmente aprendeu a respeitar as pessoas. Significaria que estamos vivendo em um país mais justo, mais humano, onde podemos existir sem medo, com amor, respeito e liberdade.