(Divulgação) Carlinhos de Jesus é, sem dúvida, um dos maiores nomes da dança de salão no Brasil. Com uma carreira que atravessa décadas, conquistou o público e os palcos com sua paixão, técnica e dedicação à dança. Queria ser médico, se formou em Pedagogia, mas o talento e a paixão ditaram os passos. De jurado na Dança dos Famosos a diretor artístico de projetos sociais, esteve recentemente em Santos para participar da abertura do Cultura em Movimento e compartilhar um pouco de sua experiência e visão sobre o mundo da dança. Carlinhos, sua carreira atravessa décadas e você é um dos nomes mais importantes da dança de salão no Brasil. O que ainda te motiva a continuar ensinando e coreografando? Cresci querendo ser médico, fiz vestibular para Direito, me formei em Pedagogia e acabei dançando... Este é o resumo da minha vida, a paixão pela dança ultrapassou qualquer profissão. Quando percebi que poderia viver dela com dignidade, optei por segui-la. Não penso em me aposentar, adoro o que faço e tenho completa identidade com a minha profissão, esta é a minha motivação. Você há anos faz parte do júri da Dança dos Famosos como jurado técnico. Como enxerga a evolução dos participantes ao longo dos anos e como equilibra o olhar técnico com a leveza do entretenimento? Sou jurado técnico, no mínimo tenho que ser leal ao cargo que ocupo. Não quer dizer que sou rigoroso. Sou imparcial, fiel ao gênero da dança que está sendo apresentado e respeitoso com o artista e o professor de dança. Observo principalmente o ritmo, entrosamento do casal e a fidelidade à dança apresentada. É necessário cumplicidade, parceria e sintonia para que haja prazer e beleza na dança. A Dança dos Famosos vem me surpreendendo, ano após ano – estou desde a primeira edição –, pela qualidade artística dos participantes, cada vez melhor. Em 2024 teve um show de dança, cenário, figurino, os participantes se entregando. Muitos comentam sobre seu olhar rigoroso e exigente na sala de aula. Você se considera mesmo um professor duro ou acha que essa fama é um pouco exagerada? Isto é uma novidade para mim, acho que é um exagero. Gosto muito de ministrar aulas para alunos iniciantes e procuro sempre atuar de forma lúdica e usando movimentos do dia a dia que facilitam muito o aprendizado. Talvez estejam confundindo com o trabalho artístico, de palco, que necessita beirar a perfeição e talvez eu seja mesmo um pouco exigente... Você sabe, por exemplo, que no Carnaval as coreografias valem notas e um deslize pode desclassificar uma escola de samba. Além das aulas e da televisão, você também desenvolve projetos sociais ligados à dança. Pode contar um pouco sobre o que tem feito nesse sentido atualmente? Estou sempre envolvido com projetos sociais. Atualmente, sou diretor artístico do Instituto de Restauração Humana Vivarte, que atende a adolescentes em situação de risco e tem o objetivo de desenvolvimento integral e despertar de habilidades para o mundo do trabalho. Você já falou sobre como a dança salvou sua vida em muitos momentos. Como a família tem sido importante no seu equilíbrio pessoal e profissional nesses últimos anos? Posso dizer que a dança foi uma carta de alforria que me libertou de preconceitos, paradigmas e me conduziu para novos horizontes. A família, para mim, é união, apoio, pertencimento, é a minha base fundamental. Sem ela, não sei o que seria de mim. Sou o que sou graças a ela, que me apoiou e me mandou seguir com aquilo que acreditava. Santos tem uma cena cultural vibrante e muitas academias de dança. Você veio para o Cultura em Movimento. Qual a importância de levar esse tipo de evento para fora do eixo Rio-São Paulo, valorizando talentos regionais? Precisamos fomentar ainda mais a cultura da dança, oportunizar a simpatizantes, amadores e profissionais da dança este espaço para que possam curtir, reciclar, apresentar seus trabalhos e descobrir talentos. Importante lembrar que todo e qualquer evento, ação, produção que envolva a cultura da dança é excelente para o bem-estar físico e mental e para manter vivas a cultura e a identidade de um povo. Após tantos anos de dedicação, você ainda tem algum sonho não realizado dentro da dança? Há algum novo projeto que possa nos adiantar? Sou uma pessoa privilegiada. Consegui o reconhecimento pela minha trajetória, recebi vários prêmios, só no carnaval são 8 estandartes de ouro e 5 tamborins de ouro, títulos, moções, condecorações, Honra ao Mérito Cultural Brasileiro – MEC. Mas o que me traz muita emoção e perplexidade, pois jamais imaginei me ver representando a dança de salão numa academia de cultura, foi ser eleito membro da Academia Brasileira de Cultura (ABC), ocupando a cadeira 47. Esta honraria representa a realização de todos os prêmios acima citados. Estou no momento dirigindo e atuando num pequeno musical, que se chama “Que Treta é Essa? É Samba ou é Pagode?”. Estou também atuando como diretor de movimento e coreógrafo de uma grande produção musical chamada “Chatô & Os Diários Associados - 100 Anos de Paixão”, que está em temporada viajando algumas cidades. Em junho estará em São Paulo, sem contar que sigo com o meu trabalho de dança e palestras por várias cidades brasileiras. Meu projeto futuro, que já está em andamento, será colocar o samba de gafieira como patrimônio imaterial brasileiro e futuramente, quem sabe, mundial. Ao longo da sua trajetória, quem são seus maiores ídolos, tanto na dança quanto fora dela, que te inspiraram como artista e como pessoa? Meus ídolos são pessoas comuns. Me inspirei muito no Mestre Delegado, que foi um grande mestre sala da Mangueira – seus movimentos eram perfeitos. Outra inspiração foi um dançarino chamado Bolinha, de uma leveza invejável. Copiava os seus movimentos. Como pessoa, meu espelho foi o meu pai, muita saudade. Infelizmente, ele não conheceu o meu sucesso. Como artista, minha inspiração vem da oportunidade de ter convivido com grandes diretores de teatro, espetáculos, cinema, pessoas que acreditaram em mim. Pude ser dirigido, posteriormente assistente e até parceiro em grandes eventos. Aprendi muito nesta trajetória. Para citar alguns: Jorge Fernando, Maurício Tavares, Nelson Motta, Tadeu Aguiar e Chico Anísio, entre outros.