Um dos tumores que mais cresce no País segue se instalando justamente no lugar onde menos olhamos: o intestino grosso (Adobe Stock) O câncer de intestino avança em silêncio e, muitas vezes, dentro de rotinas modernas que parecem inofensivas: refeições rápidas, pouco movimento, muita pressa. Enquanto isso, um dos tumores que mais cresce no País segue se instalando justamente no lugar onde menos olhamos: o intestino grosso, que engloba cólon, reto e canal anal. O cirurgião do aparelho digestivo Daniel Fortes fala sobre diagnóstico, tratamento e prevenção. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quando falamos de intestino englobamos o cólon, o reto e o ânus? Sim. Quando falamos em intestino grosso, estamos nos referindo ao cólon, reto e canal anal. É exatamente nesses segmentos que ocorre o câncer colorretal, que é o segundo tipo de câncer mais comum na soma de homens e mulheres. O câncer de intestino é hoje um dos tumores que mais crescem no País. Afeta principalmente pessoas acima dos 50 anos, mas tem aumentado também em adultos jovens. A maioria dos casos poderia ser prevenida ou diagnosticada precocemente. Quais são os principais fatores de risco? Idade acima de 50 anos, histórico familiar de câncer de intestino ou pólipos, doenças inflamatórias intestinais (colite ulcerativa e doença de Crohn), alimentação pobre em fibras e rica em carne vermelha e processada, sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo excessivo de álcool. O que realmente funciona para a prevenção? Os pilares mais fortes são: alimentação rica em fibras (consumo de frutas, verduras, legumes, grãos e cereais integrais reduzem o risco ao acelerar o trânsito intestinal e alimentar a microbiota) e redução de carnes processadas. Os embutidos aumentam comprovadamente o risco. Já a carne vermelha deve ser consumida com moderação. Além disso, a prática regular de atividade física é um dos fatores mais protetores. Melhora metabolismo, reduz inflamação e peso corporal. O controle do peso ajuda muito, já que a obesidade aumenta a inflamação sistêmica, altera a microbiota e está ligada ao maior risco de pólipos e tumores. E o exame de colonoscopia de rastreamento, considerado o método mais eficaz, já que previne e diagnostica. O quanto o estilo de vida moderno tem influenciado? Muito. Refeições ultraprocessadas, ricas em gordura e pobres em fibras, longos períodos sentado, estresse crônico, ganho de peso e consumo abusivo de álcool. Isso tudo cria o ambiente ideal para pólipos e tumores se desenvolverem. A colonoscopia é a principal forma de prevenir de fato o câncer de intestino? Todo câncer se origina de um pólipo? Sim. A colonoscopia é o único exame capaz de prevenir de fato o câncer colorretal, porque permite encontrar e remover pólipos antes que se transformem em câncer. E, sim, a imensa maioria dos cânceres de intestino surge a partir de pólipos adenomatosos, que crescem lentamente ao longo de anos. Por isso o rastreamento é tão eficaz. A partir de qual idade a colonoscopia deve fazer parte do check-up? Para a população geral, a partir dos 45 anos. Pessoas com fatores de risco, especialmente histórico familiar, o exame deve ser feito antes, geralmente entre 35 e 40 anos, dependendo do caso. Quais são os sintomas que merecem atenção imediata? Sangramento nas fezes, prisão de ventre ou diarreia persistente, dor abdominal contínua, perda de peso involuntária, fezes finas ou em fita, anemia sem causa aparente. Quais sinais costumam ser ignorados e atrasam o diagnóstico? Sangramento (algumas vezes as pessoas acham que é hemorróida), cansaço e fraqueza atribuídos ao dia a dia, alterações leves nas fezes que persistem, desconforto abdominal crônico e perda de peso discreta. O câncer de intestino costuma ser silencioso no início, por isso a importância do rastreamento. É possível ter câncer de intestino sem sintoma? Sim. Cerca de 40 a 50% dos pacientes não apresentam sintomas nas fases iniciais. Quando surgem sintomas, muitas vezes, o tumor já está mais avançado. Existe algum exame alternativo para quem tem medo da colonoscopia? Há alternativas, mas nenhuma substitui a colonoscopia. Entre elas pesquisa de sangue oculto nas fezes, teste de DNA fecal, colonografia por tomografia (colonoscopia virtual). Eles ajudam no rastreamento, mas não permitem remover pólipos. Se algo aparecer, o paciente terá que fazer colonoscopia. De quanto em quanto tempo e preciso repetir a colonoscopia? Se o exame estiver normal e sem pólipos: a cada cinco a dez anos. Se tiver pólipos, o intervalo deve ser reduzido para um a três anos, dependendo do tipo, número e tamanho. Por que o rastreamento salva tantas vidas? Porque o câncer colorretal tem uma fase pré-cancerígena longa, que permite intervenção antes do tumor surgir. Quando é detectado no início, a taxa de cura ultrapassa 90%, as cirurgias são menos invasivas, muitas vezes não há necessidade de quimio e conseguimos preservar a função intestinal. Quando diagnosticado tardiamente, as chances de cura caem drasticamente. Quais são os principais tipos de câncer de intestino? Os principais tipos de câncer de intestino são o adenocarcinoma, que representa mais de 90% dos casos, os tumores neuroen-dócrinos, os linfomas e os sarcomas. No entanto, quando falamos em câncer de intestino no dia a dia, estamos quase sempre falando de adenocarcinoma colorretal. Algum tipos crescem mais rápido ou é mais agressivo? Sim. Alguns tumores apresenta<CW-9>m padrões histológi-cos mais agressivos, como o adenocarcinoma mucinoso, o adenocarcinoma de células em anel de sinete e os tumores associados a síndromes genéticas (como Lynch). Esses tendem a evoluir mais rapidamente e podem aparecer em pacientes mais jovens. Os tumores do reto têm particularidades? Sim. O reto é uma região anatômica delicada, próxima a músculos e nervos responsáveis pela continência. Por isso, o tratamento costuma ser multidisciplinar e, muitas vezes, envolve radioterapia e quimioterapia antes da cirurgia, além da abordagem cirúrgica ser mais complexa e deve preservar função. Como é o tratamento para o câncer de intestino? A cirurgia ainda é o tratamento principal e curativo à maioria dos casos. As técnicas modernas (laparoscopia e cirurgia robótica) reduziram dor, tempo de internação e complicações. Mas, dependendo do estágio, pode ser preciso quimioterapia (principalmente para cólon), quimioterapia e radioterapia (para reto. Quando é necessário colocar a bolsa de colostomia? Colostomia pode ser necessária quando o tumor está muito baixo no reto, há risco de vazamento na costura (anastomose), o intestino precisa de tempo para cicatrizar e é preciso desviar o trânsito intestinal temporariamente. Em muitos casos, a bolsa é temporária, sendo retirada após a recuperação da cirurgia. Quando entram a quimioterapia e a radioterapia? A quimioterapia é indicada a tumores de cólon mais avançados ou quando há risco de recidiva. Já a quimio + radioterapia é o tratamento padrão para tumores de reto médios e baixos, geralmente realizadas antes da cirurgia para reduzir o tumor e facilitar a preservação do esfíncter. *Cláudia Duarte Cunha é jornalista especialista em Saúde.