Calgary vai muito além da porta de entrada para as Montanhas Rochosas do Canadá (AdobeStock) Minha viagem pelo oeste canadense começou em Calgary e é desta cidade que escrevo a coluna desta semana. Para muitos turistas, ela é apenas a porta de entrada para as montanhas rochosas e os parques nacionais de Banff e Jasper. Para mim, porém, Calgary já conquistou um lugar especial no coração e espero sinceramente que esta não seja minha última visita. Com pouco mais de um milhão de habitantes, Calgary é uma cidade moderna, organizada e surpreendentemente agradável para explorar a pé. Seu centro reúne arranha-céus, parques bem cuidados, ciclovias e uma atmosfera que transmite prosperidade. Grande parte desse desenvolvimento está ligada à indústria de petróleo e gás, que transformou Calgary em um dos principais polos econômicos do Canadá. Ao caminhar pelo centro histórico, encontrei uma cidade em plena transformação. A tradicional Praça Olímpica, construída para os Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, passa por uma ampla revitalização. O espaço, que durante décadas foi um dos principais pontos de encontro da população, está sendo completamente redesenhado para receber áreas de convivência, eventos culturais e novos espaços verdes. É um projeto que demonstra como Calgary busca se reinventar sem esquecer a importância de sua história. Outra mudança marcante está acontecendo poucos metros dali. O histórico Saddledome, arena inaugurada para os Jogos de 1988 e que durante décadas foi a casa do time de hóquei Calgary Flames e palco do tradicional Calgary Stampede, está dando lugar a um novo complexo esportivo e de entretenimento. O prédio, conhecido mundialmente por seu telhado em formato de sela de cavalo, tornou-se um dos grandes símbolos da cidade. Sua despedida desperta nostalgia, mas também representa uma nova etapa para um centro urbano que continua evoluindo. Apesar da arquitetura contemporânea e dos grandes edifícios, Calgary preserva um ritmo de vida tranquilo. O Rio Bow corta a cidade formando extensos parques urbanos, onde moradores caminham, pedalam ou simplesmente aproveitam os dias de verão. Essa convivência harmoniosa entre natureza e urbanismo talvez seja uma das características que mais chamaram minha atenção. Mas tem uma atração, em especial, que me faz amar Calgary: é o Heritage Park Historical Village. Não se trata de apenas um museu. É uma verdadeira viagem no tempo. Considerado o maior museu de história viva do Canadá, o parque ocupa uma enorme área às margens do reservatório Glenmore e recria diferentes períodos da colonização do oeste canadense. Ao entrar, tive a sensação de caminhar por uma cidade do final do século 19 e início do século 20, onde tudo parece funcionar exatamente como naquela época. As ruas são ocupadas por mais de 800 personagens vestidos com roupas históricas que interpretam comerciantes, ferroviários, professores, policiais e moradores. Não são apenas figurantes; eles conversam com os visitantes, explicam os costumes da época e demonstram como era o cotidiano dos primeiros colonizadores. A experiência torna a visita extremamente envolvente. As construções também impressionam. Escolas, igrejas, hotéis, oficinas, correios, farmácias e casas foram cuidadosamente preservadas. Nada parece cenográfico. Tudo transmite a sensação de que a cidade continua vivendo exatamente como há mais de cem anos. Entrar nesses edifícios é entender como viviam as famílias que ajudaram a construir o oeste canadense. Aos fins de semana e durante a alta temporada é possível embarcar em um autêntico trem a vapor. A locomotiva percorre parte do parque passando por bosques, fazendas e pequenas estações, oferecendo uma perspectiva diferente da área histórica. É uma experiência que encanta crianças, mas desperta igualmente o interesse dos adultos. Um dos pontos altos da visita é o Gasoline Alley Museum, que abriga uma impressionante coleção de automóveis antigos, carruagens, máquinas agrícolas, equipamentos ferroviários e bombas de gasolina clássicas que ajudam a contar a evolução dos transportes no oeste do Canadá. Tudo é apresentado de maneira impecável, tornando a visita interessante até para quem normalmente não é apaixonado por automóveis ou história. O que mais me chamou a atenção, porém, foi a maneira como o Heritage Park consegue preservar a memória sem parecer um espaço estático. Ao contrário dos museus tradicionais, ali a história está viva. Há sons, aromas, demonstrações de antigos ofícios e atividades acontecendo o tempo todo. É um daqueles lugares onde o visitante deixa de observar a história e passa a vivê-la. Saí do parque com a impressão de compreender melhor a própria identidade de Calgary e do Canadá. Antes de se tornar uma metrópole moderna, a cidade nasceu da ferrovia, da pecuária e do espírito pioneiro que ainda hoje faz parte da cultura da província de Alberta. E há uma excelente notícia para os brasileiros. A partir de novembro, Calgary passará a contar com voos diretos para São Paulo, aproximando ainda mais um destino que merece ser descoberto. Se antes a cidade era apenas um ponto de passagem rumo às montanhas rochosas, hoje reúne atrativos suficientes para justificar alguns dias no roteiro. Calgary soube preservar sua história enquanto constrói seu futuro - e talvez seja exatamente esse equilíbrio que a torne uma das cidades mais interessantes do oeste canadense.