(Pixabay) Fim de tarde como outro qualquer. Um sabiá-laranjeira parece reclamar da árvore. Paro o que faço para ouvir a conversa dos pássaros com mais calma até que um som estridente surge como a abertura de uma viagem no tempo. Seria mesmo ela? PUUUUUUUUUUUU, primmmmm, thcimim, thcimim, thcimim, thcimim, thcimim, thcimim. Seu som é inconfundível. É o canto da cigarra que me leva à juventude em Santos, quando esse som tão conhecido significava calor, chuva e a época mais bacana do ano: o verão. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Certa vez, fomos uma amiga e eu ao Orquidário. Era fim de tarde, o asfalto ainda molhado da chuva intensa e passageira,a aquele chuáááá que faz o perfume de terra úmida subir e abrir outro portal, o da infância, quando o pé sujo da brincadeira no quintal tinha cheiro. Antes de entrarmos, minha amiga estacionou na frente. Os vidros estavam abertos para suportarmos o dezembro abafado e o canto do que pareciam muitas cigarras ressoava lá fora, com um exército de sentinelas nas árvores que percorriam o entorno. Uma delas foi corajosa. Mergulhou dentro do Uno Mille da minha amiga, num verdadeiro voo de paraglider. Ambas gritamos como loucas e saímos cada uma por uma porta, talvez junto com a pobre da cigarra que, com nosso berro mais estridente que o seu, fugiu voando para o galho mais próximo. Vimos bem de perto. A bichinha era feia: corpo marrom de casca dura, asas de borboleta, porém transparentes e assustadoras. Se tivesse tamanho gigante, seria um monstro. Aparência abominável, mas com canto de sereia. Descobri que quando decidem aquecer o gogó, esperam conquistar as fêmeas para o acasalamento. São os machos os responsáveis pela ópera da natureza e o canto pode chegar a 100 decibéis, o equivalente a uma sirene de ambulância. Imagino o Seu Cigarro tentando seduzir a Dona Cigarra, aumentando o volume à medida que a paixão aumenta. Monteiro Lobato também viu graça na cigarra. A fábula “A cigarra e as formigas” compara o trabalho árduo dos minúsculos insetos com o dom artístico da cigarra. Privilegia a batalhadora formiga? Não, a fábula dá valor a ambas, pois se uma guarda comida para o inverno, o canto da cigarra produz beleza e preenche espaços que só a arte consegue. A cigarra tem vida subterrânea. Vive por anos no subsolo, comendo a seiva das raízes. Anos depois, se metamorfoseia e sobe para o andar de cima, nas árvores, onde se acasala e, seguindo seu ciclo natural, morre semanas depois. Esse ciclo parece que se encurtou. Há tempos não ouvia o canto da cigarra. Será que decidiram viver só embaixo da terra? Encontraram outro pouso feliz? Desapareceram com as mudanças climáticas? Ou Seu Cigarro e Dona Cigarra se desentenderam para sempre? Não há respostas. Aliás, nada está registrado sobre o sumiço das cigarras. Só eu sinto falta delas? Tenho a impressão de que as cigarras presenciaram muitas histórias de vida por aqui. O beijo dos namorados na moto estacionada no Canal 5, o mar que invadiu a avenida na Ponta da Praia, o sol que se põe na linha do horizonte. Testemunhas cantantes de tudo que acontece na cidade. Se você, leitor, encontrar alguma cigarra, por favor, diga que estou à procura de todas para escrever uma próxima crônica, quem sabe, sobre o repertório desses insetos artistas. “Nada está registrado sobre o sumiço das cigarras. Só eu sinto falta delas?