Ator Bukassa Kabengele está no ar em três produções ao mesmo tempo, incluindo a novela A Nobreza do Amor, da TV Globo, e celebra reconhecimento do público e conquistas no mundo das artes Você está no ar em três produções ao mesmo tempo. Quais as peculiaridades de cada uma delas? São três roteiros diferentes e cada um traz a sua história. É baseado nisso que começo a construir cada um de meus personagens. Esse é o segredo para que cada um tenha suas realidades e peculiaridades. Em Dona Beja, Paulo Sampaio é um homem negro rico, tradicional e casado com uma mulher branca Ceci (Deborah Evelyn) que tenta criar seus três filhos em meio a muitos conflitos. Ele é abolicionista e tem as suas heranças familiares. Em Emergência Radioativa, Evenildo é dono de um Ferro Velho. É um homem ambicioso de origem pobre, que ama muito sua mulher Antônia (Ana Costa) e quer dar o melhor para sua família e irmãos João e Darlei. A situação econômica e social me dá dicas do caminho junto ao material e acontecimentos de referência. Em A Nobreza do Amor, faço o engenheiro José, que na verdade é o príncipe Zambi vindo de Batanga, um homem que abdicou de um reino por amor. São tipos distintos, merecem as suas construções singulares de acordo com minha percepção, conversas com a direção e trabalho de preparação. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De que forma sua trajetória ajuda no trabalho desenvolvido em A Nobreza do Amor? Pelo fato de ser um africano da República Democrática do Congo que chegou ao Brasil com 10 anos de idade e por ter uma referência e educação africana, apesar da naturalização brasileira. Isso me traz alma, corpo e postura para poder trazer esse Zambi, que é o engenheiro José, de forma natural e legítima. Por falar em vida pessoal, como o Brasil surgiu na vida de sua família? Meu pai foi fez o mestrado em Bruxelas, na Bélgica, por ser o primeiro antropólogo do Congo e pela Bélgica ter sido a colonizadora na época. Lá havia esse curso e ele se formou. Nesses primeiros anos de estudo dele, eu nasci. Falo com orgulho que sou filho do respeitado professor doutor Kabengele Munanga e de minha mãe, Yombo Masanga. Como eles eram congoleses, eu igualmente assim me tornei, por lei de sangue. Quando voltamos ao Congo, eu tinha 2 anos e vivi até os 10, vindo em seguida para o Brasil, onde meu pai fez doutorado e se refugiou politicamente. Como foi crescer com os ensinamentos de pai? Digo que tenho o privilégio de ter sido educado sob esse manta, olhar e amor de alguém que sempre pôs em primeiro lugar a nossa sobrevivência e educação. A minha potência e segurança está construída nessa base, é dela que me alimento para me posicionar perante o mundo e a sociedade. Recentemente, a República Democrática do Congo conquistou uma vaga na Copa do Mundo. Entende que isso pode contribuir para a valorização de suas raízes por quem não conhece a história do país? Esse é o lado bom da Copa do Mundo de futebol e dos esportes de visibilidade mundial. O evento, pela sua grande envergadura, mídia, popularidade e audiência mundial, permite que as pessoas conheçam, de alguma forma, outros países, suas culturas e histórias. Isso é sempre positivo, independentemente de resultados, e por isso é tão celebrado quando os países se classificam. E certamente quando as pessoas têm a chance de ver outros povos e suas culturas, também se entendem como construções culturas que vem da diversidade africana, no caso do Brasil. É importante para desconstruir pré-conceitos. Falando agora de Dona Beja, você interpreta o coronel Paulo Sampaio, casado com Ceci, que é racista. Como é desenvolver esse trabalho? É o desafio natural de viver o amor dentro de sistemas complexos. Sampaio ama sua mulher e tem que lidar com seu racismo, algo natural da época, mas ainda vivemos situações parecidas atualmente em relações inter-raciais. Diariamente, casais precisam entender os universos de seus pares e suas realidades, para que, na medida do possível, transponham as barreiras de um racismo estrutural que impera em sociedades racistas. A novela teve sua primeira versão exibida pela extinta TV Manchete, em 1986. Você teve contato com essa obra? Sempre soube da fama da primeira versão, mas costumo partir daquilo que o roteiro me apresenta. Sem contar que o autor escolheu fazer algumas releituras de pontos que já não fariam sentido na primeira versão. Nesse caso, não me preocupei com essa referência anterior para compor o personagem. Aqui ele é negro e tem outra construção e abordagem cultural. Já na série Emergência Radioativa, é abordada a contaminação por césio-137 em Goiânia, uma ocorrência que marcou os anos 80. Como foi estudar esse personagem? Foi rico, pois eu não me recordava da gravidade, do impacto que teve e da repercussão. Eu tinha 17 anos e estava tentando fazer as minhas escolhas profissionais. Vivia em São Paulo e lembro da repercussão na mídia apenas. Mas, para preparar o personagem, foi profundo e doloroso estudar Evenildo, isso posso garantir. Tivemos acesso a reportagens e muita conversa com nosso diretor Fernando Coimbra, que estava bastante inteirado. Mandamos perguntas para vítimas, vivemos nossos mapeamentos e laboratórios bastante profundos... Enfim, é complexo construir bons personagens e mais ainda conseguir trazê-los para cena e, assim, dar-lhes vida. É uma alquimia, ciência difícil de ser dita em palavras. Como foi gravar com nomes como Paulo Gorgulho, Leandra Leal e Tuca Andrada? Desses, a única com quem eu não havia trabalhado era a Leandra Leal. São todos excelentes atores. Como profissional, dedicado a meu ofício, me sinto pronto sempre para lidar, e trocar, com todos igualmente, com respeito e admiração mútua. O ator tem que se preocupar em dar vida ao personagem, dar a ele presença e existência, dentro de uma trama estabelecida pelo roteiro. Nesse sentido, sempre tive trocas incríveis com meus talentosos colegas, sempre de forma construtiva e positiva. Em sua carreira, são quase 40 anos dedicados às artes. Como foi sua trajetória? Houve algum tipo de preconceito a ser superado? Eu diria que são 40 anos de muita luta e conquista diária a cada trabalho feito. Tive as minhas superações e aos poucos fui conquistando respeito não só do público, mas de profissionais que fazem parte de meu círculo, como diretores, produtores, atores e roteiristas. Em todas as etapas, sempre tive que vencer questões peculiares referentes a preconceitos e racismo estrutural. Mas isso nunca foi novidade nem impedimento para que eu seguisse firme os meus sonhos e propósitos. Além desses três trabalhos, você participará do filme Narciso. O que o público pode esperar? Sim, eu tenho dois filmes que fiz participações pontuais, mas também venho numa grande produção do diretor Marcos Jorge, chamada A Arte do Roubo. Contudo, prefiro deixar correr o barco até que o filme fique pronto. Como é o Bukassa Kabengele fora das câmeras? A minha família é a base das minhas lutas. Minha companheira e esposa Vera Rocha, com quem estou há 23 anos, é artista plástica e mãe de nossa filha Mwanza, que tem 19 anos, e já está em seu segundo ano de Faculdade de Biologia na USP. Elas são meus amores. Tem meus irmãos também, que não exponho na mídia. Sou mais velho de cinco filhos. Além disso, tem meu pai e minha segunda mãe, a Irene Kabengele, mais tios e tias... Enfim, a vida é bela e vale a pena. Gosto de me vestir bem, sem seguir muito a moda, mas com personalidade. Adoro ficar perto dos meus, apesar de minha vida corrida. Eu me divirto com amigos quando posso, mas a família me basta e tenho poucos amigos próximos. A música também me alimenta nessas fases de muita produção audiovisual. Por meio dela, me conecto ao divino e busco minha paz interior.