Flutuações nos rios são imperdíveis. Rio Sucuri é bem tranquilo (Arquivo Pessoal) Bonito é daqueles lugares que enganam à primeira vista. Quando o avião pousa no Mato Grosso do Sul, o cenário parece árido, quase seco demais para imaginar que dali surgiriam tantas belezas. Mas basta começar a explorar para perceber que o tesouro se revela nos rios de águas cristalinas e repletos de peixes e plantas subaquáticas, nas cavernas milenares, nas grutas de azul hipnótico e na vegetação que mistura Mata Atlântica e Cerrado. A cada trilha, uma surpresa. A cada mergulho, um novo espetáculo da fauna e da flora. É como se a natureza tivesse escolhido Bonito para ser seu palco mais generoso. Espetáculo subterrâneo A Gruta do Lago Azul é um dos principais cartões-postais de Bonito e, ao chegar, você já sente a organização do turismo local. O passeio começa com uma trilha de 200 metros até a entrada da caverna, onde somos equipados com capacetes e máscaras, conforme exigido por segurança e preservação ambiental. A chegada até o lago é feita por uma escadaria íngreme de 300 degraus, o que exige preparo físico, mas a recompensa é indescritível: águas cristalinas e um azul profundo que parece não ter fim. É uma experiência única, que combina beleza natural com segurança e estrutura impecáveis. Rios transparentes, cavernas imponentes e uma culinária cheia de sabor fazem do destino sul-mato-grossense um mergulho na natureza (AdobeStock) Aquário natural Um dos passeios mais incríveis que fiz foi a flutuação no Rio Sucuri. A correnteza suave me levava sem esforço, permitindo que me concentrasse apenas na paisagem subaquática. Peixes coloridos nadando ao meu redor e a sensação de estar flutuando em um aquário gigante são inesquecíveis. Antes da flutuação, fizemos uma trilha curta e agradável, onde o guia nos explicou sobre a flora e fauna da região, que mistura elementos do Cerrado e da Mata Atlântica – uma característica de Bonito. Toda a estrutura é pensada para o conforto do turista, com equipamentos de qualidade e guias experientes. Imersão em águas cristalinas A flutuação no Rio da Prata é um passeio mais longo e exigente, mas que vale cada segundo. Sem correnteza, é necessário usar os braços para avançar, mas a recompensa é um cenário subaquático de tirar o fôlego. O passeio começa com uma trilha na mata, onde é possível observar nascentes e apreciar a biodiversidade local. Chegando ao rio, a flutuação se inicia, acompanhada por guias especializados. Há uma parada em que podemos mergulhar, tirando o colete de flutuação. Ao final, uma visita à fazenda que dá nome ao atrativo é imperdível: além de conhecer a produção de um delicioso doce de leite artesanal, é possível desfrutar de um almoço típico com pratos do Mato Grosso do Sul, como a sopa paraguaia (que é uma torta de milho) e carnes como o famoso cupim de colher. Silêncio e grandiosidade subterrânea Entre as experiências que mais me marcaram está a visita à Gruta Catedral. Depois de atravessar uma passarela suspensa, seguimos por uma trilha tranquila de 320 metros até a entrada da caverna. No caminho, a natureza já dava as boas-vindas: vimos vários macacos entre as árvores, em um cenário onde Cerrado e Mata Atlântica se encontram. Lá dentro, o tempo de visitação é de cerca de 1 hora e, ao longo do percurso, o guia faz diversas paradas para explicar as formações espeleológicas. É impressionante observar de perto estalactites, estalagmites, colunas e coralóides que levaram milhares de anos para se formar. A sensação é de estar em uma catedral natural, onde o silêncio é quebrado apenas pela nossa própria respiração. Praia da Figueira: descanso com vista Depois de tantas trilhas e flutuações, nada como um dia para relaxar. A Praia da Figueira é um desses lugares que combinam lazer e natureza em um cenário de cinema. O espaço tem uma lagoa de águas claras e calmas, perfeita para banho, e uma areia branquinha que faz a gente até esquecer que está no interior do Mato Grosso do Sul. A estrutura é boa, mas não ótima. Tem quiosques, restaurante, um redário lindo que fica sob a figueira que dá nome ao local e até tirolesa para os mais animados. Eu aproveitei para descansar nas espreguiçadeiras à beira da lagoa, mas a cozinha estava sem energia no dia, então limitou minhas opções. Para descansar ou ir com crianças, as praias e balneários têm estrutura para passar o dia (Arquivo Pessoal) Bem estruturado Uma das coisas que mais me impressionaram em Bonito foi a organização do turismo. Todos os passeios são realizados por meio de agências autorizadas, com preços tabelados e inclusões claras. Nas flutuações, por exemplo, estão inclusos equipamentos como roupa de neoprene, colete flutuante, sapatilhas, máscara e snorkel. Os guias são ótimos e a infraestrutura de apoio é boa: vestiários, banheiros, restaurantes e áreas de descanso garantem conforto e segurança. Carro é a melhor escolha Se tem uma dica que eu daria para qualquer viajante que pensa em ir até Bonito é: alugue um carro. Eu cheguei pelo voo direto de Congonhas até Bonito e já encontrei meu veículo reservado me esperando no aeroporto — e foi a melhor decisão da viagem. Mesmo para quem desembarca em Campo Grande, a escolha mais prática continua sendo a locação de um carro. Assim você não fica refém dos horários de vans ou transfers e tem liberdade para organizar os passeios no seu ritmo. As estradas na região são bem sinalizadas e de fácil acesso. Outro ponto positivo é que as próprias agências enviam a localização exata de cada atrativo por WhatsApp, o que deixa tudo ainda mais simples. Na prática, você dirige com tranquilidade, chega aos passeios sem estresse e ainda aproveita o caminho, que muitas vezes já é uma atração à parte. Peixes locais como pacu e piraputanga são servidos na brasa ou até à parmegiana (Arquivo Pessoal) Sabores de Bonito: quando a viagem também é pelo paladar Se tem algo que faz Bonito ser ainda mais inesquecível é a mesa que acompanha cada passeio. Afinal, depois de tanto mergulho em rios cristalinos e trilhas pela mata, nada melhor do que repor as energias com a culinária típica da região. Doce de leite da fazenda A visita à Fazenda Rio da Prata não é só sobre águas cristalinas. Ali, o tempo parece correr diferente. Entre uma flutuação e outra, tive a chance de conhecer a produção do doce de leite artesanal da fazenda. O preparo é hipnótico: o tacho de cobre vai sendo mexido lentamente por até oito horas até atingir a textura cremosa e o tom mais escuro, resultado do ponto mais caramelizado e da adição de bicarbonato de sódio na receita, típico da região. Ver o doce nascer ali, do leite do gado da fazenda, faz cada colherada ter ainda mais sabor. Casa do João No almoço do outro dia, a pedida foi a Casa do João, talvez o restaurante mais charmoso de Bonito. É fácil de reconhecer: uma casa amarela de esquina, com ambientes ao ar livre e cobertos, cercada por um jardim onde caramboleiras fazem sombra às mesas. O mais curioso é que os próprios frutos podem ser colhidos na hora e transformados em uma caipirinha fresca. O restaurante é comandado por João Roza Vizcaino, um santista que se apaixonou por Bonito em 1996 e nunca mais foi embora. Juanita Entre os mais movimentados da cidade está o Juanita, famoso por servir pratos que são a cara de Bonito. Lá pode-se provar carne de jacaré — uma iguaria local que lembra frango, mas com um sabor mais delicado — e também peixes de água doce, como o pacu, preparados na brasa. Espaço Jack Se a ideia é almoço descomplicado, o Espaço Jack é parada obrigatória. Com um bufê self-service caprichado, é o lugar ideal para comer uma comida caseira, daquelas que lembram domingo na casa da avó, mas claro com o toque sul-mato-grossense, com muita carne e a famosa sopa paraguaia (torta de milho). As sobremesas fazem tanto sucesso quanto o prato principal: doce de leite típico, doce de abóbora e até arroz doce. Ah, a Jack é irmã da Juanita. Bacuri Para quem curte uma apresentação mais moderna, o Bacuri é uma ótima surpresa. O cardápio é regional, mas vem reinterpretado de forma contemporânea, com opções como quibe de peixes dos rios locais ou o cupim de colher. Vênus Pizzaria E porque nem só de peixe e jacaré vive o turista, a Pizzaria Vênus é a escolha certa para quando bate a saudade de uma boa redonda. Massa bem feita e coberturas generosas.