A febre dos bebês reborn, bonecos hiper-realistas, tomou conta do noticiário (AdobeStock) Homens sempre tiveram autorização para reviver momentos da infância descontraidamente, com ar de molecagem entre amigos, já adultos. Jogar futebol de botão, montar ferroramas, pilotar autoramas, bater bafo com figurinhas, manter a coleção de bonecos Comandos em Ação e similares eram vistos como válvula de escape das responsabilidades. Durante muitos anos, jogar videogame e embarcar no universo de fantasias de RPG era quase exclusivamente um passatempo masculino. Isso mudou, é verdade. Mulheres já são maioria no Brasil entre os usuários de games (não para competição) e se mostram tão empenhadas nos jogos de interpretações de papéis (o RPG) quanto os rapazes, além de arrasarem desde sempre como Cosplays, fantasiando-se dos mais diversos personagens. Mas, então, parte das mulheres resolveu brincar com aquilo que mais as ensinaram ser fundamental desde meninas: a maternidade. A febre dos bebês reborn, bonecos hiper-realistas, tomou conta do noticiário, das redes sociais e das conversas de bar. Quase sempre condenando as mulheres. Os comentários são carregados das mais comuns ofensas ao feminino, com loucas e frustradas no topo da lista. Por que brincar de boneca bebê é delírio coletivo e ficar nervoso, chorar, gritar, agredir quando o time do coração perde é mais aceitável? Vamos lá. Gerações inteiras de mulheres cresceram acreditando que cuidar e criar eram as principais obrigações femininas. Algo tão forte que suas brincadeiras eram reproduções do que as esperariam no futuro. Brincar de casinha e de mamãe era imposto e incentivado. Vale lembrar que parte dessas meninas não tinha condição financeira para bonecas caras. Lembro de uma vizinha dos meus pais, mãe de dois rapazes, dona de coleções dessas bonecas bebê, com chupetinha e mamadeira, porque, quando menina, não tinha dinheiro para comprar. Ter um bebê reborn pode responder a esse desejo de falta infantil — que bate no coração de qualquer pessoa, das mais diferentes maneiras. Notem que mulheres que colecionam e brincam de Barbie não são criticadas. Afinal, neste caso, estamos falando de uma boneca que replica o estereótipo de beleza, magreza, vaidade — mesmo que também tenha todas as profissões do mundo. Ainda assim, Barbie representa, em grande parte, aquilo que se “espera” da mulher, objetificadamente, com um tipo de feminilidade só não mais cobrado do que a maternidade. Chegamos aos bebês reborn. Os exageros existem? Claro que sim. Não por culpa das mulheres. Somos uma sociedade de excessos. Nos tornamos humanamente excessivos em comportamentos disfuncionais. Crianças, jovens, adultos, idosos. Não escapa ninguém. E um ponto não menos importante. Por que o lúdico não nos é permitido? Desconfio que vem da crença, mesmo que velada, de que mulher decente é mulher responsável. Como assim tem tempo para brincar? Mulher com tempo para si mesma? Hummm. Coisa de quem não dá conta do que deve. Os homens, sim, precisam do lúdico! Seus cotidianos são tão pesados, de tanta sobrecarga… Brincar é universal e não deveria ser um problema independentemente da idade ou do gênero. Nem da espécie. Já viram como filhotes de qualquer animal amam brincar o tempo todo? E não sejam bobos. Festa e parto de bebê reborn na internet é jogada de marketing só para vender mais. Talvez devesse ser essa a maior preocupação. Na sociedade dos excessos o mercado está sempre pronto a explorar nossas emoções até torná-las patológicas. P.S.: deixem de ser chatos e ouçam Bebê Tubarão, do canal O Reino Infantil, fazendo dancinha na sala sem vergonha de brincar.