Com mais de três décadas dedicadas ao teatro, ao cinema e à televisão, Gustavo Falcão vive um momento de intensa produção. No filme Elize: Sombras de uma Mulher, da Netflix, interpreta Heitor, personagem que transita entre o fascínio e a ambiguidade em uma trama inspirada em um dos casos criminais mais conhecidos do país. Em entrevista, o ator fala sobre o processo de criação do papel, revela detalhes de um longa sobre o pintor pernambucano Cícero Dias e reflete sobre a arte como instrumento de transformação social. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como foi o processo de preparação para interpretar Heitor em uma história baseada em fatos reais? Meu personagem no filme Elize tinha, no roteiro, alguma inspiração em figuras reais, mas não havia uma correlação direta com ninguém especificamente, como é o caso dos personagens da própria Elize, do Marcos e de sua família. Pude criar um personagem completamente ficcional. Não pesquisei nem me baseei em ninguém real, nem assisti a documentários ou li livros sobre o caso. Abordei o roteiro como uma obra de ficção e apoiei a elaboração de Heitor nas sessões de preparação em que interagi com Henrique Kimura, que interpretou o Marcos, e Lorena Comparato, a Elize, conduzidos pela preparadora Maria Silva. Muitos elementos, como o sotaque que criei para o personagem, nasceram das trocas que tive com Felipe Vellas, diretor do filme. O filme propõe um olhar mais psicológico do que policial sobre os personagens. O que você espera que o público leve dessa produção? Espero que o filme possa provocar reflexões sobre o caso e sobre os temas que ele aborda. A função da arte é vasculhar a alma humana, seus caminhos, razões e desrazões, nunca efetuar julgamentos. A perspectiva do filme coloca Elize no centro da história, conectando o espectador a uma personagem que cometeu um ato violento, mas que também sofria abusos. O filme não toma partidos. Pelo contrário, provoca mais perguntas do que respostas. Honestamente, não acho que existam respostas simples para tudo o que aconteceu, e deixar essas perguntas reverberarem talvez seja o aspecto mais interessante da obra. São mais de 30 anos de carreira. O que ainda desperta seu entusiasmo ao aceitar um novo projeto? É curioso, porque sinto que tenho tudo a aprender e tudo a viver. Não percebo esses 30 anos, a não ser na memória e em uma certa intimidade que adquiri com o ofício criativo. Cada novo projeto me desafia. Talvez o que mais me entusiasme hoje seja justamente o alargamento de visão provocado pela multiplicidade de áreas em que tenho atuado, compreendendo seus diversos aspectos de maneira mais profunda. Você está desenvolvendo um longa inspirado em um episódio da vida de Cícero Dias. O que te fascina nessa história? Muita coisa me fascina. Primeiro, a trajetória de Cícero, um menino de engenho que saiu ainda criança do interior de Pernambuco, dedicou-se à arte e à luta política, ganhou o mundo e conquistou a admiração de grandes artistas de sua época. Mas, sobretudo, esse episódio específico tem uma força e uma riqueza poética extraordinárias. Ainda não posso revelar muitos detalhes. Estamos desenvolvendo o projeto em parceria com a Rec Produtores, de Recife, e iniciando a fase de captação. Minha expectativa é que, daqui a dois ou três anos, estejamos rodando o filme. Como o projeto Lunático transformou sua visão sobre o papel social da arte? O trabalho à frente do Lunático explicitou o potencial transformador que a arte pode ter na formação do indivíduo e da sociedade. Eu já tinha essa percepção, mas de um ponto de vista mais individual, relacionado ao impacto que uma obra provoca no espectador. Com esse projeto, no qual também atuei muitas vezes como professor, pude testemunhar na prática a transformação que a experiência artística provoca nos alunos, estimulando autoconhecimento, confiança, expressividade, autonomia, estruturação emocional e socialização. Isso é muito belo e gratificante. Há algum personagem que mudou sua forma de enxergar a atuação? Todos eles. Um personagem sempre ensina alguma coisa, desde que haja curiosidade e interesse em investigá-lo profundamente. Mas destaco Antônio, da peça e do filme A Máquina, pela transformação que provocou na minha vida. O Faísca, de As Filhas da Mãe, também foi marcante pela riqueza de detalhes e delicadeza, no meu primeiro papel na televisão nacional. E o Seu Jujuba, de Cine Holliúdy, por me permitir resgatar minhas raízes e me reconectar com uma história tão brasileira e tão nordestina. Você atua, dirige, escreve e coordena projetos culturais. Como consegue equilibrar tantas frentes? Também tenho gravado audiolivros e coordenado as aulas do Lunático de tecido acrobático, circo e cinema. São realmente muitas frentes. Todas me encantam igualmente e, de certa forma, uma alimenta a outra. Há muita paixão envolvida, mas o fundamental são as parcerias. Em todos esses projetos tenho pessoas fabulosas ao meu lado: Juliana Féres, minha parceira também de vida no Lunático; Roberto Bruguel, nos audiolivros; Camilla Gismondi, nas práticas de montagem; Daniel Dias, meu amigo e sócio; João Falcão, com quem dirigi A Máquina. Todo projeto artístico é formado por talentos individuais, mas só se realiza plenamente na coletividade.