Bruno Bellarmino: “A gente sabe que fazer cultura no Brasil não é simples. Quando surgem novas plataformas, novos espaços, isso é muito positivo” (Phillip Lavra/Divulgação) Desde que surgiu na telinha interpretando Otávio, na série Psi, da HBO Brasil, em 2014, Bruno Bellarmino não parou mais. “Gosto de estar em movimento”, como ele mesmo diz. Doze anos depois, integra o sucesso Cangaço Novo, do Prime Video, cuja segunda temporada acaba de estrear. Na série, ele vive o dúbio Gastão Malheiro, com muitas camadas – uma característica dos personagens que vem interpretando. Ao Domingo+, ele fala sobre a carreira, o mercado artístico no Brasil e os ganhos para a classe com as recentes presenças no Oscar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O sucesso da série Cangaço Novo chegou a te surpreender? Eu já esperava, sim, um certo sucesso de Cangaço Novo desde o momento em que recebi o roteiro. Tive uma sensação muito forte de que estava entrando em um projeto diferente do que a gente costuma ver no Brasil, mas a certeza mesmo veio quando comecei a filmar. Quando vi o elenco, as atrizes e os atores em cena, na preparação... Ali ficou claro para mim que tinha algo especial acontecendo. Isso me deu ainda mais confiança no projeto e foi quando eu pensei: isso aqui vai dar muito certo. O Gastão Malheiro é um personagem um tanto indefinido: é vilão, mocinho... Ele é um mistério para você também? O Gastão Malheiro é um sujeito muito controverso mesmo. Desde a primeira leitura, eu já percebi essa contradição, e isso me chamou muito a atenção. Eu gosto de personagens assim: complexos, profundos, que se escondem dentro da própria trama. O interessante é que ele nunca se revela completamente para quem está dentro da história. Mas para quem está assistindo, está tudo ali, o tempo todo. É um personagem que vive em cena, mesmo quando parece que não está. E eu, como ator, gosto até de acompanhar o Gastão por causa dessas camadas mais sombrias, das maldades, do cinismo. Ele é um sujeito extremamente cínico, um falso moralista. Na frente de todo mundo, ele é o prefeito carismático, simpático, quase irretocável. Mas, por trás, é um completo mau-caráter. E esse contraste é o que torna ele tão potente, porque quem assiste enxerga o que os outros personagens não veem. Mas o Gastão Malheiro, na própria cabeça, se você perguntasse pra ele, diria que é um mocinho. E isso é o mais interessante, porque ele acredita nisso. Quais são as semelhanças entre esse cangaço ‘novo’ e o cangaço ‘clássico’, de Lampião? O novo ganha força a partir de ações como as de Valdetário Carneiro, lá no Rio Grande do Norte. Ele era mecânico, entrou no crime depois da morte do irmão, numa lógica de vingança, foi preso... E, dentro do presídio, acabou se conectando com outras pessoas e estruturando esse tipo de ação mais organizada. A partir daí, surge uma nova modalidade, os assaltos a banco com uma estratégia de fechar a cidade, fazer reféns, controlar o território por um tempo. É uma operação muito mais planejada, quase tática. Isso difere bastante do cangaço clássico de Lampião, que não atuava exatamente dessa forma, com esse tipo de ação coordenada em centros urbanos. Mas, ao mesmo tempo, acho que existe uma similaridade. No fundo, os dois fenômenos nascem de contextos de violência, ausência do estado e disputa por poder. Muda a forma, muda a estratégia, mas a lógica de origem, de certa forma, se conecta. Você tem um histórico de personagens de forte apelo emocional, alta intensidade, conflituosos: você se acomoda melhor nesses trabalhos ou só aconteceu de sua trajetória ser assim? Olha, eu acho que foram as duas coisas, sem dúvida. Interpretar personagens complexos, com tramas profundas e alta densidade emocional, acabou construindo essa imagem e eu gosto disso, gosto mesmo de fazer esse tipo de personagem, porque eles fogem do habitual. O interessante é que, a quem está assistindo, nem sempre existe simpatia pelas ações desses personagens... Mas existe uma identificação com a humanidade deles. Eles são muito humanos, mesmo quando são maus ou extremamente tensos. Sempre tem ali uma fragilidade, uma exposição, algo que aproxima. E é isso que me interessa como ator. Eu me sinto muito bem representado por esses personagens e também muito feliz por ter sido atravessado por eles. Porque, no fim, não é só a gente que escolhe os personagens. Às vezes, são os personagens que escolhem a gente. Você tem trabalhos na tevê aberta, mas a maior parte da sua atuação é em canais fechados e/ou de streaming. A gente tem visto o movimento de atores consolidados na tevê aberta migrando para projetos no streaming. Como você vê o mercado atual para o ator no Brasil? Eu acho que todas as formas de expressão cultural são válidas. Todo trabalho que atores e atrizes conseguem realizar, seja no streaming, seja na TV aberta, tem um valor enorme. A gente sabe que fazer cultura no Brasil não é simples. Então, quando surgem novas plataformas, novos espaços, isso é muito positivo. Abre caminho não só para quem está começando, mas também para quem já tem trajetória e continua querendo estar em movimento, experimentando, contando histórias. Eu torço para que surjam cada vez mais meios, mais possibilidades, mais janelas. Porque, no fim, quanto mais espaços a gente tiver, mais a nossa cultura se fortalece e mais vozes conseguem ser ouvidas. Nesse sentido, do mercado, as presenças do Brasil no Oscar ajudam de maneira geral o ator? Com certeza. Ver um filme brasileiro no Oscar, com atores brasileiros, já é algo muito bonito, mas pra mim, ganha uma camada ainda mais especial quando vem de um lugar como Pernambuco. Eu, como bom pernambucano, torço demais pelos meus conterrâneos. E quando vi um filme do Kleber Mendonça Filho chegando lá, fiquei muito feliz mesmo. É uma sensação de reconhecimento que vai além do individual, é coletivo, é cultural. E tomara que venham muitos outros. Quanto mais filmes brasileiros presentes nessas grandes premiações, melhor para o nosso cinema, melhor para os nossos profissionais e melhor também para a América Latina como um todo. Isso amplia o nosso espaço, fortalece a nossa identidade e mostra a potência das histórias que a gente tem pra contar. Haverá outra temporada de Cangaço Novo? Quais são seus próximos projetos? Pensa em voltar ao cinema? Eu ainda não sei se vai ter uma nova temporada. A gente acabou de lançar a segunda, está muito recente, muito bonita, e ainda tem muita gente pra assistir. Acho que esse é o momento de curtir essa temporada, deixá-la chegar nas pessoas. Mais pra frente, a gente pensa numa terceira. Agora, sobre os próximos passos, penso em voltar para tudo todo dia. Cinema, séries, novela, teatro... Gosto de estar em movimento. A gente está sempre em execução, sempre construindo alguma coisa. Tenho projetos de teatro, cinema e séries para este ano ainda, e também para o ano que vem. Então é isso: seguir trabalhando, contando histórias e encontrando personagens que me provoquem.