Dramaturga, roteirista, atriz, curadora e cantora, Dione Carlos é uma das vozes mais potentes e plurais da cena artística brasileira. Sua trajetória é um mergulho na força criativa das mulheres negras e na capacidade transformadora da arte. Criada no subúrbio carioca, mãe de três filhos, Dione encontrou no teatro o espaço onde todas as suas linguagens se encontram — a palavra, a música, a performance e a reflexão. Ganhadora dos prêmios Shell e APCA de melhor dramaturgia por Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos, e do Leda Maria Martins por O Fim é Outra Coisa, também conquistou o prêmio de melhor documentário no Festival de Cinema de Nova Iorque com Elza Infinita. Nesta entrevista, fala sobre o novo momento de sua carreira — agora também como roteirista da primeira novela inédita do canal Globoplay Novelas, Guerreiros ao Sol. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Você ingressou no teatro profissional aos 28 anos, mas sua relação com os palcos começou ainda na escola. O que te fez perceber que a arte seria o seu caminho definitivo? Encontrei na literatura um refúgio na minha infância e adolescência. Gostava de ler em voz alta e participava das atividades escolares apresentando trabalhos através de peças que eu criava. Quando ganhei de presente um curso de teatro, percebi que aquele era o meu lugar. Uma mistura de muitas artes em um lugar só, reunindo pessoas e seus talentos. Sua trajetória é marcada pela presença em diferentes linguagens — teatro, cinema, televisão e música. Como você enxerga o diálogo entre essas expressões na sua criação artística? Uma arte alimenta a outra, são ramificações de uma mesma pulsão de vida, criação. Escrevo ouvindo música e canto pensando na letra das canções. E em tudo há poesia. Seja no teatro ou no audiovisual. Há uma busca pela beleza mesmo quando o tema é tabu. Elza Infinita foi premiado como melhor documentário no Festival de Cinema de Nova Iorque. De que forma a figura de Elza Soares influenciou sua maneira de contar histórias e olhar para a mulher brasileira? Elza Soares é o retrato da mulher negra brasileira que precisa se dar à luz para nascer de verdade. Sua força e talentos descomunais abriram caminhos para outras mulheres, ela estava à frente do seu tempo. Em Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos, você traz à tona potências femininas e coletivas. Como esse trabalho transformou a sua visão sobre o papel da mulher na dramaturgia contemporânea? Sempre me dediquei a entender essa mátria chamada Brasil. Ao pesquisar sobre a luta das mulheres com parentes encarcerados, atestei mais uma vez que a nossa dívida com nossas mães e avós é impagável. São mulheres que sacrificaram tempo de vida em prol da linhagem, de suas comunidades e, geralmente, sem reconhecimento algum. Mulheres que são obrigadas a serem búfalas para garantirem a própria sobrevivência e a dos seus. Você já representou o Brasil em eventos internacionais e participou de residências artísticas fora do País. O que mais te marcou nessas experiências e como elas dialogam com o seu fazer teatral no Brasil? Sair do Brasil te faz amar o país de um jeito diferente. Você olha com distanciamento e consegue reconhecer as belezas e os horrores e mesmo assim pensar que nascer nesse solo envolve receber um legado multicultural muito rico. Isso refletiu nas obras e mudou meu modo de enxergar nossos territórios. Em Guerreiros ao Sol, primeira novela do canal Globoplay Novelas, você integra a equipe de roteiristas. Como foi o processo de criação dessa história inspirada no cangaço e o que mais te encantou nesse universo? A novela foi criada por George Moura e Sérgio Goldenberg. O convite para integrar a sala me arrebatou imediatamente, pois eu já tinha uma pesquisa sobre mulheres no cangaço e esse era o recorte da narrativa. Foi uma experiência linda escrever cenas e trocar artisticamente com a equipe. Além de dramaturga e roteirista, você também é cantora. De que forma a música atravessa seu trabalho e influencia a construção de suas narrativas? Cantei em coral, depois os amigos foram me pedindo para cantar em algumas ocasiões, interpretei uma cantora lírica no teatro e percebi que era um dom também. As pessoas que me disseram, eu não descobri sozinha. Cantar me cura. Sinto como uma renovação. Sua trajetória une arte, educação e representatividade. Que mensagem deixaria para jovens artistas que sonham em seguir caminhos múltiplos como o seu? Voe alto, mas antes firme seu ninho para ter onde voltar, caso precise. Foque suas relações em afetos verdadeiros. Cuide do que lê, assiste, ouve, diz. Nossa sensibilidade precisa estar bem alimentada. Abrace seus dons como algo inegociável.