Com 120 m2, foi setorizada de forma simples e descomplicada: entrada (com pé-direito mais baixo) e sala de estar com duas cozinhas integradas - uma contemporânea e outra caipira. O painel da sala de estar foi feito com 608 cerâmicas Brennand, reaproveitadas de uma reforma (Rafael Renzo/Divulgação) Projetado pelo arquiteto de Praia Grande Gabriel Fernandes para a CASACOR deste ano, o espaço Casa Veredas Simonetto representa um encontro do arquiteto com suas memórias de infância – da avó que morava no sítio e fazia bolos perfumados e irresistíveis à tia que o recebia em casa com os primos sempre a postos para brincar, passando por seus momentos particulares. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Quando a CASACOR propôs aos profissionais desta edição uma reflexão sobre o legado que gostariam de deixar para as gerações futuras, Gabriel conta que buscou os recortes mais genuínos de suas lembranças e mesclou com descobertas de uma pesquisa que fez sobre o morar brasileiro e a relação do nosso povo com a própria casa. “A casa brasileira que temos como referência é uma herança do período bandeirista e suas sobreposições, até chegarmos à casa caipira, que fala muito sobre a história da minha família”, conta Gabriel, 30 anos. “Cresci vendo meu pai orgulhoso de suas raízes, com saudade da roça e de tudo o que viveu por lá”. Com 120 m2, foi setorizada de forma simples e descomplicada: entrada (com pé-direito mais baixo) e sala de estar com duas cozinhas integradas - uma contemporânea e outra caipira, com fogão à lenha, filtro de barro, mesa de refeições, banco rústico em madeira e um painel diferenciado com acabamento frisado ao fundo, feito de material pré-composto a partir de lâminas de madeira natural, tingidas e prensadas uma a uma. Segundo Gabriel, a intenção desta simplicidade na organização espacial tem um propósito: dar protagonismo à geometria da repetição através da estante que cobre quase todas as paredes e todo o teto do espaço. Executada pela Simonetto, a estante de cor branca com nuances de bege conta com 2.500 nichos, de 25x25cm cada, preenchidos com tijolos produzidos artesanalmente pela comunidade Maria do Barro, de Brasília, que o arquiteto conheceu durante suas pesquisas para o projeto Brasis Que Vi. “Cada tijolo é único, nenhum é igual ao outro, e ainda traz um desenho de uma casa, modelado em relevo. Os nichos representam as estruturas quadriculadas vazadas, preenchidas com barro, da antiga técnica construtiva pau-a-pique, também conhecida como taipa de mão. Esta foi a forma que encontrei de exaltar e homenagear a ancestralidade da casa caipira brasileira, dentro de uma linguagem estética atual”. Há outros elementos de destaque no projeto que merecem atenção como o painel da sala de estar (feito com 608 cerâmicas Brennand, reaproveitadas de uma reforma, em Curitiba), o painel Resistência produzido por Maria Fernanda Paes de Barro (da Yankatu) com o povo indígena Pataxó, as fotografias de janelas coloniais típicas de Tiradentes (de Marcelo Oséas), a luminária pendente Arumã (assinada pelo Estúdio MK27 e produzida com técnicas tradicionais de cestarias pelo povo indígena Baniwa), a máquina de costura da vovó (cercada por uma instalação volumosa de linha vermelha, da artista Adrianna Eu) e algumas obras de arte selecionadas pelo galerista Antonio Aversa, de Brasília, como o desenho de Tarsila do Amaral que retrata cenas do interior do Brasil, o quadro do artista Guignard e alguns objetos de origem sacra. No quesito “mobiliário”, vale destacar o par de poltronas Chica (de Zanine Caldas), revestidas com tecido estampado da Branco Casa, assinado pelo próprio arquiteto; o sofá Mole (de Sergio Rodrigues) estofado em couro natural marrom, que faz parte do acervo pessoal de Antonio Aversa; a mesa de centro desenvolvida por Bruno Rangel exclusivamente para o espaço, com desenho inspirado na posição das mãos em oração. Na parede de fundo da cozinha contemporânea, o arquiteto criou um grande nicho ao lado dos armários para expor objetos do cotidiano caipira (como vassouras, lanternas, serrote e chapéu de palha), garimpados pelo produtor Paulo Carvalho. Única representante da natureza viva no espaço, a jabuticabeira escolhida a dedo pela paisagista e florista Regina Peres cumpre o papel de nos fazer lembrar dos quintais de casa, mesmo inserida em uma construção modernista tão emblemática quanto o Conjunto Nacional. Outros ambientes Livraria Em sua 1a participação na CASACOR São Paulo, a arquiteta Marina Salomão traz o ambiente Sertões do Saber, espaço com uma narrativa visual e tátil, que reflete os contrastes e as dualidades encontradas nos sertões a partir da natureza e dos conflitos retratados no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Ao longo dos 68 m2 de extensão da livraria, desde a entrada com portas metálicas envidraçadas, até seu interior e o depósito oculto, Marina projetou um lugar que exerce um papel comercial, mas que, ao mesmo tempo, abraça o visitante como se fosse um grande living. Livraria (Rafael Renzo/Divulgação) Banheiro público Para as arquitetas Débora Pinheiro e Renata Nascimento a arquitetura carrega o poder de, por meio de escolhas assertivas e criativas, conceber espaços que incentivem a consolidar sentimentos de calma e serenidade que nos levam à paz interior. Foi com essa inspiração que elas, estreantes na CASACOR São Paulo, assinam o banheiro público Ilhas de Reflexão que, alinhado ao tema da edição 2024 De presente, o agora, explora o conceito do útero como princípio gerador da vida humana. Funcional, aberto e fluído, o ambiente é repleto de materiais orgânicos que vão transportar os visitantes para breves momentos de meditação. Símbolo da Bolívia Veterano da CASACOR Bolívia desde a primeira edição, em 2013, o arquiteto Eduardo Baldelomar, traz a inspiração da natureza exuberante de seu país para São Paulo. Em sua segunda passagem pela edição paulistana, o profissional relaciona a Ceiba Camba, como tema e nome do seu espaço – uma ótica de 54 m2 – usufruindo de uma paleta de cores e texturas inspiradas na árvore, símbolo boliviano. Essa espécie de flor marcante é natural da região leste boliviana, é um ícone que estampa o brasão do Departamento de Santa Cruz de La Sierra e a nota de 20 da Bolívia, bem como diversas obras de arte e, principalmente, os cenários urbanos do outono do país. O pórtico de ingresso ao ambiente é marcado por um mural de grande dimensão, assim como outra peça ao fundo, ambos desenhados por Baldelomar e construídos em mosaico com cerâmica reciclada pelo artista autodidata e engenheiro químico, também boliviano, Andrés Fenix.