A orla de Jeddah Corniche, com marcos modernos e o Mar Vermelho ao fundo (AdobeStock) Alguns anos atrás lembro de ler uma entrevista de um rapaz que teria visitado todos os países do mundo e quando indagado sobre qual o país mais fechado que ele visitou, me surpreendeu que a resposta não foi Coreia do Norte, mas sim, a Arábia Saudita. Por décadas, a Arábia Saudita foi sinônimo de petróleo, tradição religiosa e isolamento do Ocidente. Guardiã de Meca e Medina, cidades sagradas do Islã, o reino sempre esteve no centro do mapa geopolítico, mas longe da rota do turismo internacional de lazer. Essa imagem começou a mudar quando os Emirados Árabes Unidos, com menos de meio século como nação, transformaram Dubai e Abu Dhabi em vitrines globais de luxo, modernidade e diversão. Desconfio que a ascensão meteórica do vizinho tenha deixado a Arábia perplexa, pois, de repente, o símbolo de prosperidade do Oriente Médio não era a tradicional e riquíssima Arábia Saudita, mas sim os jovens Emirados Árabes Unidos. Num movimento de reação liderado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, foi lançado o plano de modernização Saudi Vision 2030, uma das mais ousadas estratégias de diversificação econômica já vistas. O objetivo é claro: transformar a Arábia Saudita em um dos destinos mais desejados do mundo, conquistando um lugar de destaque no mapa global de viagens. Os anúncios dos projetos feitos nos últimos anos impressionam tanto pela escala quanto pela criatividade: Jeddah Tower Planejada para superar o Burj Khalifa e alcançar mais de 1 km de altura, será o arranha-céu mais alto do mundo e um novo símbolo da disputa de protagonismo regional. The Line Cidade linear de 170 km em pleno deserto, parte do projeto NEOM, promete ser movida a energia limpa, sem carros, ruas ou poluição. Uma visão futurista que parece saída da ficção científica. Trojena Também em NEOM, será uma estação de esqui em meio às montanhas, aberta durante o ano inteiro. Contará com pistas modernas, lagos artificiais e experiências únicas, provando que até esportes de inverno podem existir no coração da Arábia. Sindalah Ilha no Mar Vermelho voltada ao turismo náutico e de luxo, com marinas para iates, mergulho em recifes e resorts que rivalizam com os destinos mais exclusivos do planeta. Qiddiya City Aclamada como a futura capital do entretenimento, o complexo reunirá atrações de peso. Um parque temático inspirado em Dragon Ball, um Six Flags inédito na região, um parque aquático e até uma pista de Fórmula 1 são algumas das promessas que devem atrair famílias, jovens e amantes de esportes. Arenas, centros culturais e eventos internacionais completarão a oferta, posicionando Qiddiya como um dos maiores polos de lazer do mundo. King Salman Park Em Riad, será um dos maiores parques urbanos do planeta, com museus, teatros, áreas esportivas e extensas zonas verdes, pensado para tornar a capital mais acolhedora e atraente aos visitantes. New Murabba Um dos projetos mais ambiciosos, prevê um gigantesco cubo arquitetônico em Riad, que abrigará museus, experiências digitais imersivas e espaços culturais. A construção promete ser um novo ícone da cidade. Diriyah Opera House Dentro da revitalização de Diriyah, berço histórico da monarquia saudita, a ópera reflete a aposta em cultura e artes, setores até pouco tempo restritos no país. Esses investimentos marcam uma guinada histórica. Um país que até 2019 emitia pouquíssimos vistos de turismo hoje abre as portas a estrangeiros com processos simplificados de eVisa. Festivais de música, grandes eventos esportivos e convenções internacionais começam a fazer parte do calendário. Ainda assim, algumas tradições permanecem intocáveis: Meca segue sendo acessível apenas a muçulmanos, mantendo sua exclusividade religiosa e espiritual. Essa dualidade é, justamente, o que torna a transformação saudita tão singular. De um lado, o respeito absoluto às tradições do Islã; de outro, uma abertura ao mundo que parecia inimaginável há poucos anos. Se a Arábia conseguirá ou não rivalizar com os Emirados Árabes em termos de imagem, ainda é cedo para afirmar. Mas uma coisa já está clara: o reino não aceita mais ficar à sombra do vizinho.