(Jeferson Medrado/Divulgação) Com seu humor afiado e alma inquieta, Andy Gercker volta na sétima temporada de Tô de Graça (Multishow e Globoplay), interpretando Maico — personagem que carrega tanto exagero quanto afeto. Natural de Joinville, Andy já soma 25 anos de carreira, sendo 15 deles na TV Globo, e transita com elegância entre o palco e a televisão, do riso escancarado à reflexão profunda. Ao domingo+, ele fala sobre o reencontro com o Maico, a amizade de duas décadas com Rodrigo Sant’Anna, os bastidores da nova temporada e os atravessamentos pessoais que tornam o humor uma forma de cura. Mais do que um ator, Andy é um contador de histórias que sabe rir da vida — e de si mesmo — com uma leveza que desarma. Entre um insight sobre neurociência e uma piada bem colocada, mostra que reinventar-se é um ato contínuo de escuta, entrega e, claro, amor pelo ofício. Como foi para você voltar ao universo de Tô de Graça na sétima temporada? A relação com o elenco e com personagem mudou ao longo do tempo? Voltar ao universo de Tô de Graça é como entrar na casa daquela tia barulhenta, onde todo mundo grita, ri alto e no fim do dia você sai com o coração quente e o maxilar doendo de tanto rir. É um lugar onde me sinto em casa — por mais caótica que essa casa seja. O Maico, esse meu personagem tão exagerado quanto amoroso, cresceu comigo. A relação mudou, sim, mas como mudam as boas relações: ela amadurece sem perder a graça. Hoje sinto que há mais escuta, mais cumplicidade e, ao mesmo tempo, uma liberdade ainda maior para brincar e improvisar. O elenco virou uma família — com todas as maluquices que isso implica. E o mais bonito é ver como esse projeto continua tocando as pessoas, mesmo depois de tantos anos. É humor com afeto, e isso, no fundo, nunca sai de moda. Você comentou que interpretar o Maico tem um valor terapêutico. Que tipo de cura pessoal esse personagem trouxe para você? Interpretar o Maico foi — e continua sendo — uma libertação. Ele é desbocado, dramático, exagerado, mas tem uma coragem de ser quem é que, honestamente, me ensinou muito. Às vezes, a gente passa a vida inteira tentando se encaixar, tentando parecer mais “adequado”, mais “adulto”, mais “normal”. O Maico ri disso tudo. Ele me ajudou a rir de mim mesmo, a abraçar minhas próprias contradições, minhas fragilidades, meus brilhos e meus tombos. Existe algo muito curativo em poder colocar pra fora emoções que, na vida real, a gente esconde. O riso, quando é verdadeiro, tem uma força de cura absurda — e o Maico me deu isso: a chance de me curar rindo. Ele é uma parte de mim que eu acolhi com mais ternura ao longo dos anos. Quais desafios você enfrenta ao criar um personagem tão carismático e ao mesmo tempo tão próximo da sua própria história? O maior desafio, talvez, seja justamente esse: separar a vida do personagem da minha. O Maico tem muito de mim, mas ele não sou eu. A linha entre o que é criação e o que é confissão pode ser bem tênue, especialmente quando a gente trabalha com o afeto, com a dor e com o humor da nossa própria vivência. Às vezes, é difícil entender se estou rindo de mim ou com o personagem — ou se estou me protegendo dele. Ao mesmo tempo, essa proximidade é um presente, porque me dá um grau de verdade que o público sente. Mas ela exige cuidado. É preciso ter escuta interna pra não se perder, pra não virar uma caricatura de si mesmo. No fim, o desafio é esse: deixar o personagem crescer sem deixar que ele tome conta de você. E, claro, continuar se divertindo no processo, porque sem prazer, a verdade some — e o público sente na hora. A série agora tem direção geral de Silvio Guindane e produção da TV Globo. Como essas mudanças impactaram o clima nos bastidores e o ritmo das gravações? Foram mudanças importantes — e muito positivas. A chegada do Silvio Guindane na direção trouxe um olhar fresco, atento e generoso. Ele é ator, sabe o que é estar do outro lado da câmera, e isso faz toda a diferença. Há uma escuta mais sensível, uma liberdade criativa que se equilibra com muito rigor técnico. Já a entrada da Globo na produção elevou a estrutura sem engessar a alma do projeto. Continuamos sendo essa grande bagunça amorosa que é o Tô de Graça, mas agora com mais recurso, mais cuidado e mais alcance. O clima nos bastidores ficou ainda mais profissional, mas sem perder o afeto, a leveza e a farra — que são, aliás, ingredientes essenciais do nosso sucesso. Estamos vivendo um momento de amadurecimento coletivo, e é lindo fazer parte disso. Além do humor, Tô de Graça também trata de temas sociais importantes com leveza. Como você vê o papel da comédia na construção de representatividade? A comédia, quando é feita com verdade e humanidade, tem um poder imenso de abrir portas e janelas. Ela entra rindo onde o discurso sério às vezes é barrado. Em Tô de Graça, a gente fala de desigualdade, de preconceito, de exclusão — mas sem perder a ternura e sem apontar o dedo. E isso é transformador. Representatividade não é só sobre estar presente na tela, mas sobre como estamos ali: com complexidade, com nuances, com dignidade, mesmo na bagunça. O Maico, por exemplo, é gay, periférico, afeminado, e mesmo assim é amado, ouvido e respeitado na sua comunidade — algo que por muito tempo foi negado à nossa imagem na televisão. A comédia tem essa mágica: ela faz a gente se ver e se reconhecer, mesmo quando está rindo. E isso cura, ensina e aproxima. Você tem uma longa trajetória no teatro e na televisão. O que o palco ainda te proporciona que a TV não entrega — e vice-versa? O palco é o lugar onde tudo começa e, para mim, onde tudo se renova. Ali, o tempo é outro, a escuta é mais direta, o erro vira poesia e o público respira com você. No teatro, cada sessão é única, e essa imprevisibilidade é viciante. É um espaço onde posso experimentar, aprofundar e até fracassar com mais liberdade — e isso me mantém vivo como artista. Já a televisão tem um alcance que emociona. É incrível perceber que um personagem que você criou num set atinge milhões de pessoas, em lugares onde você nunca pisou. A TV exige precisão, rapidez e entrega imediata. Ela me ensinou a confiar mais na primeira tomada, a ser objetivo sem perder a alma. São mundos diferentes, mas complementares. Um me dá raiz, o outro me dá voo. E eu gosto de estar com um pé em cada um. Como foi escrever e dirigir Mahatma Andy e a Batata Filosofal? A neurociência influenciou seu olhar artístico de que maneira? Mahatma Andy e a Batata Filosofal nasceu desse lugar onde a bobagem encontra a filosofia — para minha surpresa, deu match. Escrever e dirigir esse espetáculo foi uma espécie de travessia interna: eu quis rir das minhas crises, das minhas buscas por sentido, mas sem me afastar da profundidade delas. A neurociência entrou nessa equação como uma lente afiada. Estudar o cérebro, o comportamento, a atenção plena, me fez repensar o modo como construo personagens, ritmo, silêncio e até o timing da piada. A arte, no fundo, é neurologia emocional aplicada. Quanto mais entendo sobre como sentimos, mais posso brincar com isso no palco — com respeito, mas sem perder a irreverência. O resultado foi um espetáculo nonsense e meditativo, ao mesmo tempo. Um convite para rir e para se escutar no meio do riso. Com 25 anos de carreira e tantos projetos à vista, como você se reinventa e se mantém motivado? Olha, tem dias em que a reinvenção vem no banho; outros, só depois do terceiro café e de um colapso existencial de leve. (risos) Brincadeiras à parte, o que me move é a inquietação. Eu gosto do risco, do novo, do que me desafia a sair do lugar seguro. Me reinvento quando escuto mais do que falo, quando me permito aprender com os erros, com o silêncio. A motivação vem do desejo de comunicar algo que seja meu e ao mesmo tempo coletivo. E também da consciência de que, como artista, posso tocar, provocar, aliviar ou cutucar alguém que esteja precisando disso naquele dia. No fim das contas, sigo motivado porque ainda acredito — e me emociono — com o poder absurdo que uma boa história, ou uma boa gargalhada, tem.