(Beatriz Damy/Globo) Ana Flávia Cavalcanti é uma artista multifacetada que transita entre televisão, cinema e teatro, sempre trazendo para seus trabalhos discussões sociais relevantes. Atriz, roteirista e diretora, ela construiu uma trajetória marcada pela diversidade de experiências e pelo compromisso com a representatividade negra no audiovisual brasileiro. Seja interpretando personagens intensas ou dirigindo projetos autorais, Ana Flávia se destaca por sua entrega e olhar sensível para histórias que refletem a realidade de muitas pessoas. Na novela Garota do Momento, da TV Globo, ela dá vida a Dona Marlene, uma mulher que enfrenta as dificuldades de ser mãe solo na década de 1950, abordando temas que, apesar dos avanços, ainda ecoam na sociedade atual. No teatro, divide o palco com sua mãe na peça Conforto, onde a arte se mistura com a vida em um emocionante diálogo entre gerações. No cinema, brilhou como atriz no filme Baby e também como diretora de Rã, exibido no Festival Internacional de Berlim de 2020. Nesta entrevista, ela fala sobre desafios e conquistas, a paixão pela atuação e direção e seus planos. Com uma carreira em constante movimento, ela segue explorando novas possibilidades, sempre com olhar atento para a potência das histórias que escolhe contar. Em Garota do Momento, sua personagem aborda as dificuldades enfrentadas por mulheres e mães solo na década de 1950. Como você se preparou para retratar essas questões históricas e sociais na novela? Tivemos um workshop na TV Globo apresentando a cena carioca e brasileira nos anos 1950 e mais precisamente em 1958, ano em que a novela se passa. Foram abordados diversos temas, como sociedade, futebol, trabalho, negritude e feminismo. Esses encontros nos deram uma boa base de como vivíamos em sociedade no Brasil de 1958. Para além disso, é impressionante observar como algumas de nossas questões seguem as mesmas até hoje, com avanços obviamente, mas são temas que estão aí, aos quais martelamos diariamente, a condição de trabalho das pessoas negras, a equidade de gênero, a defesa dos direitos da comunidade LGBTQIAPN+, entre tantos outros. Por isso eu percebo a novela sendo também um espaço de debate sociocultural. Na peça Conforto, você divide o palco com sua mãe, Val Cavalcanti, e aborda temas como trabalho doméstico e alienação parental. Como foi essa experiência de trabalhar em família e trazer essas questões pessoais para o teatro? Estivemos em cartaz em São Paulo este mês e foi uma dádiva, uma diversão e uma grande sorte dividir o palco com minha mãe. A dona Val foi faxineira, assim como a mãe dela, eu também fui faxineira, assim como minha mãe, e agora ela tem sido atriz, assim como eu. Estamos fazendo um intercâmbio profissional e de vida. Olho minha mãe em cena falando com um microfone redset e penso que a vida é mesmo grande, larga, de idas e vindas e que tem sempre muito pela frente. Você tem uma carreira diversificada, atuando em novelas, filmes e teatro, além de dirigir e escrever roteiros. Como equilibra essas diferentes facetas da sua carreira artística? Sou curiosa, gosto de fazer coisas diferentes, faço uma vez uma coisa e já me sinto especialista naquilo (risos). Brincadeiras à parte, eu acredito na diversidade em suas mais vastas camadas. É de uma riqueza sem tamanho para o artista poder fazer interseções de linguagens. No filme Baby, você interpreta uma mãe solo em um relacionamento com a personagem de Bruna Linzmeyer. Quais foram os principais desafios e aprendizados ao dar vida a essa personagem? Amei fazer a Pricila. Ela é para frente, motorista de aplicativo, mãe, casada com uma mulher que ela ama, cuida da casa dela com carinho e conseguiu construir um espaço de saúde. Sinto que ela é uma pessoa do presente e que o passado para ela fica sempre no passado. Em entrevistas anteriores, você mencionou uma preocupação com a representatividade negra no audiovisual brasileiro. Quais avanços você percebeu nos últimos anos e quais desafios ainda persistem? Percebo que temos mais tempo de tela, que as produções estão mais atentas à representatividade afroindígena e da população LGBT, e que se não fazem isso por amor, fazem por temor, tamanha é nossa capacidade de articulação frente ao retrocesso. Ao mesmo tempo, temos muito o que avançar, sempre teremos, pois vivemos mais de três séculos de escravidão direta. Isso nos forjou até aqui. A mudança será sempre necessária e constante. Como diretora do filme Rã, que foi exibido no Festival Internacional de Berlim em 2020, quais foram as principais lições dessa experiência para seus projetos? Gosto de imaginar que esse filme me deu um sinal verde para contar as histórias que vêm do meu coração, das minhas vivências e de como observo o mundo. Na série Passinho, da Disney+, você interpreta Mila, mãe de Mercedes. Como foi participar de uma produção que celebra a cultura do passinho e qual a importância de levar essa manifestação cultural para um público mais amplo? Amo essa série, não vejo a hora dela ser lançada. Adorei trabalhar com tanta gente jovem. E o passinho é um movimento cultural e musical que arrebata corações. Quais são os planos para 2025? Tem algum estilo de papel ou personagem que você sonhe em fazer? Estou em Garota do Momento vivendo a Dona Marlene até junho. Pretendo descansar um pouco depois da novela. Tenho alguns projetos de escrita e também quero trazer minha peça Conforto para o Rio de Janeiro. Sempre sonho em fazer uma boa personagem, complexa, divertida, transante, sensível, normal, religiosa e um pouquinho má.