Alessandra Verney fala sobre a emoção de viver o clássico musical (João Mário Nunes/Divulgação) Uma das grandes vozes do teatro musical brasileiro, Alessandra Verney vive um momento especial da carreira ao protagonizar Victor ou Victoria, clássico inspirado no filme imortalizado por Julie Andrews. Em cartaz até hoje no Rio de Janeiro, a atriz dá vida à personagem que transita entre diferentes identidades em uma trama ambientada nos anos 1930, mas que segue provocando reflexões bastante atuais sobre liberdade, preconceito e autenticidade. Aprovada pessoalmente por Julie Andrews para assumir o papel, Alessandra celebra a oportunidade de interpretar uma personagem que considera uma das mais complexas de sua trajetória. Em entrevista ao domingo+, ela fala sobre os desafios de viver Victoria, a emoção de dividir o palco com Miguel Falabella, a influência da estrela britânica em sua formação artística e os novos sonhos que a movem, entre eles o lançamento de seu primeiro álbum autoral. Victoria vive um jogo constante entre identidades. O que essa personagem te ensinou sobre autenticidade e sobre a forma como nos apresentamos ao mundo? Ela me ensinou que autenticidade nem sempre significa mostrar tudo o que somos o tempo inteiro. Às vezes, passamos a vida interpretando papéis para sermos aceitos, amados ou simplesmente para sobreviver. O paradoxo da Victoria é justamente esse: ao fingir ser outra pessoa, ela acaba descobrindo partes muito verdadeiras de si mesma. Interpretá-la me fez refletir sobre quantas máscaras usamos no cotidiano. A personagem transita entre diferentes identidades e, nesse percurso, percebe que o mais importante não é como os outros a definem, mas como ela se reconhece. Acho que essa é uma lição muito humana e atemporal. Você foi aprovada pessoalmente por Julie Andrews para interpretar o papel. Como recebeu essa notícia e qual foi a emoção daquele momento? Foi inesquecível. O Claudio Botelho me ligou de madrugada para dar a notícia, mas eu estava dormindo. Acordei com o áudio dele falando sobre a aprovação e em seguida comemoramos ao telefone. Eu sempre fui uma grande admiradora da Julie Andrews, desde criança. Nunca nos meus sonhos eu imaginei que seria um dia ouvida por ela, então isso tudo me toca num lugar muito especial. Passa um filme na minha cabeça, sobre a minha carreira, inclusive. Ela foi uma das minhas influências para cantar e também para gostar de musicais. O espetáculo se passa nos anos 1930, mas aborda temas que continuam atuais... O que mais me impressiona é como a história continua provocando reflexões sobre identidade, gênero, preconceito e liberdade de ser quem somos. Embora a trama aconteça nos anos 1930, as perguntas que ela faz ainda estão muito presentes hoje: até que ponto somos nós mesmos? Quanto da nossa imagem é construída para atender às expectativas dos outros? Além disso, a peça fala sobre amor, aceitação e a coragem de desafiar convenções sociais. São temas universais. O público ri, se emociona e se diverte, mas também sai do teatro refletindo. E acredito que é justamente essa combinação de entretenimento e reflexão que mantém Victor ou Victoria tão relevante décadas depois de sua criação. Há alguma cena ou música do espetáculo que ainda te emociona mesmo depois de tantos ensaios e apresentações? São tantos momentos especiais, mas You and Me sempre me emociona por cantá-la junto com o Miguel Falabella, pois é uma música que retrata a amizade e a cumplicidade genuína entre duas pessoas. Cada vez que contraceno com ele nessa canção, também passa pela minha cabeça toda a parceria que tivemos juntos até hoje e os muitos momentos especiais que vivemos juntos - e isso é muito emocionante, estar em cena com ele novamente, nesses dois papéis tão icônicos. Você já interpretou personagens muito marcantes nos musicais. Em que aspectos Victoria é diferente de todas as outras mulheres que já viveu no palco? Victoria é única porque vive uma jornada de transformação muito mais complexa do que qualquer outra personagem que já interpretei. Personagens como Lilli Vanessi, em Kiss Me, Kate; a Baronesa Elsa, em A Noviça Rebelde; e Irene Molloy, em Hello, Dolly!, têm personalidades fortes e trajetórias muito bem definidas. Já Victoria passa o espetáculo inteiro navegando entre diferentes versões de si mesma. O grande desafio — e também o grande fascínio — dessa personagem é que ela está constantemente interpretando. Como atriz, preciso construir uma mulher que finge ser um homem que, por sua vez, se apresenta ao público como uma mulher. É um jogo de camadas muito rico, que exige precisão, sensibilidade e verdade em cada momento. Além disso, Victoria tem uma coragem admirável. Ela se reinventa diante das circunstâncias e encontra força justamente naquilo que a torna diferente. Acho que é essa mistura de vulnerabilidade, inteligência, humor e ousadia que faz dela uma personagem tão especial e tão distinta de todas as outras mulheres que tive o privilégio de viver no palco. Ao longo da carreira, você transitou entre teatro musical, televisão, cinema e agora investe também na carreira autoral como cantora. O que cada uma dessas linguagens desperta em você como artista? Cada uma dessas linguagens me permite expressar facetas diferentes da minha arte. O teatro musical é, talvez, a experiência mais completa para mim, porque reúne interpretação, canto e movimento ao vivo, em uma troca imediata com o público, além de ser muito atlético, exige muita técnica e muitos cuidados com o corpo e voz. Existe uma energia única em contar uma história diante da plateia e sentir aquela conexão acontecendo em tempo real. A televisão e o cinema me convidam a um trabalho mais íntimo e detalhado. A câmera capta nuances muito sutis, e isso exige um outro tipo de entrega e construção de personagem, que eu também adoro explorar. Já a música autoral é um espaço muito pessoal. Como intérprete, eu dou voz às histórias de outros autores; como cantora e compositora, tenho a oportunidade de compartilhar minhas próprias emoções, experiências e visão de mundo. É uma forma de expressão extremamente verdadeira e libertadora. No fundo, todas essas linguagens têm algo em comum: a possibilidade de emocionar, provocar reflexões e criar conexões humanas. É isso que me move como artista, independentemente do palco, da tela ou da música. Seu primeiro álbum autoral está a caminho. O público vai encontrar uma Alessandra diferente daquela que conhece dos palcos? Acredito que sim, porque o álbum traz mais a minha essência pessoal, principalmente como compositora. Vocalmente também, pois a minha voz não estará a serviço de um personagem, e sim, das canções que escolhi interpretar. Porém, é difícil a atriz não estar presente nas interpretações, pois é impossível dissociá-la de mim quando o assunto é arte. Depois de realizar o sonho de protagonizar Victor ou Victoria, qual é o próximo sonho artístico que ainda falta realizar? São os sonhos que continuam me movendo, sempre. Não tenho ainda um novo musical em mente, mas o lançamento do meu álbum já será mais uma grande realização pessoal pra mim, pois é algo que anseio fazer há anos. Quero demais fazer mais cinema, séries, TV, peças de teatro e continuar no caminho de produção de espetáculos.