Às vezes a viagem pode levar a lugar nenhum (AdobeStock) Nos últimos meses, a inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma ferramenta para agilizar tarefas do dia a dia e passou a interferir diretamente no setor de turismo. Mas nem sempre de forma positiva. Casos recentes mostram que vídeos e imagens hiper-realistas, gerados por IA, têm atraído turistas para lugares que simplesmente não existem, gerando frustração, prejuízo e até mesmo desconfiança em relação a conteúdos digitais. Um exemplo que ganhou repercussão internacional foi o de um casal da Malásia que percorreu quase 300 quilômetros para conhecer um suposto teleférico chamado Kuak Skyride, divulgado em um vídeo profissionalmente produzido. Nas imagens, uma apresentadora entrevistava visitantes na fila, descrevia a vista panorâmica e mostrava cabines modernas suspensas em meio a montanhas verdejantes. Ao chegar à pequena cidade de Perak, os viajantes descobriram que nada daquilo existia. Moradores locais ficaram surpresos com a história e confirmaram: nunca houve teleférico na região. O vídeo, depois revelado como criação de IA, foi um verdadeiro golpe de expectativa. Outro caso que viralizou nas redes sociais foi o de um vídeo divulgado por um perfil brasileiro com mais de 1 milhão de seguidores mostrando um trem ligando Hamburgo, na Alemanha, a Copenhague, na Dinamarca, com imagens do trem passando pelo meio do mar, pelo meio da neve e atravessando cidades como Paris e Londres, que sequer ficam no caminho entre os dois pontos. E esses não foram casos isolados. Diversos relatos já apontam para roteiros turísticos fantasmas gerados por aplicativos de viagem que utilizam inteligência artificial para sugerir destinos. Pesquisadores do setor testaram ferramentas populares e constataram que, em até 90% dos casos, havia ao menos uma atração inexistente ou descrita de maneira imprecisa no itinerário — como museus que nunca foram inaugurados, monumentos inventados e até restaurantes fictícios. Outro problema crescente envolve fotos manipuladas ou totalmente criadas por IA, usadas em anúncios de hotéis e resorts. Imagens de praias paradisíacas, piscinas infinitas com vista para montanhas ou quartos luxuosos têm circulado em plataformas de reserva. Na prática, muitos desses lugares não passam de invenções digitais. Alguns usuários relatam que só descobriram a farsa após tentar reservar ou até chegar ao suposto endereço, que levava a terrenos vazios ou prédios comuns sem qualquer relação com o prometido. O fator comum em todos esses episódios é a sofisticação das criações digitais. Vídeos com narradores convincentes, entrevistas simuladas, cenários realistas e até logotipos de emissoras de TV falsificados tornam difícil, mesmo para um observador atento, identificar se a atração é autêntica. A IA, que deveria ser uma aliada do turismo, também está sendo explorada para golpes e para a criação de conteúdos enganosos. Especialistas alertam que, diante desse novo cenário, a checagem de informações torna-se indispensável. Verificar se a atração está listada em sites oficiais de turismo, consultar avaliações reais em plataformas consolidadas e pesquisar reportagens em veículos reconhecidos são passos fundamentais antes de planejar uma viagem baseada em vídeos ou postagens virais. Além disso, desconfiar de imagens perfeitas demais ou de vídeos sem referências verificáveis pode evitar frustrações. Mais do que nunca, esse fenômeno reforça a importância dos agentes de viagem e guias de turismo, profissionais que conhecem os destinos e oferecem segurança na elaboração de roteiros. Com sua experiência, eles funcionam como um filtro confiável em meio ao excesso de informações digitais, garantindo que o viajante chegue a lugares que realmente existem e viva experiências memoráveis. Como evitar cair em golpes de turismo por IA Cheque sites oficiais: antes de viajar, confirme a existência da atração em portais oficiais de turismo. Leia avaliações reais: use plataformas como TripAdvisor e Google Maps para ver comentários de viajantes. Pesquise em veículos reconhecidos: reportagens e guias editoriais geralmente confirmam a autenticidade das atrações. Desconfie de imagens perfeitas: fotos sem imperfeições ou vídeos sem referências claras podem ter sido gerados por IA. Consulte um agente de viagens: a curadoria de profissionais segue sendo a forma mais segura de evitar armadilhas.