Quando essas mudanças persistem e começam a comprometer a rotina, é importante procurar ajuda (Adobe Stock) O expediente termina, mas a cabeça continua no trabalho. O descanso parece insuficiente, tarefas habituais exigem esforço crescente e atividades antes prazerosas perdem espaço. Quando essas mudanças persistem e começam a comprometer a rotina, é importante procurar ajuda. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo informações publicadas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), foram concedidos em 2025 166.489 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos de ansiedade e 126.608 por episódios depressivos. Os números representam concessões de benefícios e não permitem concluir, isoladamente, que o trabalho tenha causado todos esses quadros. Para a psiquiatra Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota, períodos de preocupação e desgaste fazem parte da vida e não significam, por si só, a presença de um transtorno mental. A atenção deve aumentar quando há mudanças persistentes no humor, no comportamento e na capacidade de realizar as atividades cotidianas. “É importante perceber quando aquele cansaço começa a ser diferente, quando descansar já não parece suficiente ou quando atividades que antes eram realizadas normalmente passam a exigir um esforço muito maior. Mudanças no sono, no humor, na concentração e na disposição também precisam ser observadas”, explica. No ambiente profissional, as dificuldades podem aparecer na organização das tarefas, na tomada de decisões e no relacionamento com colegas. Fora dele, podem afetar o convívio familiar e os momentos de lazer. A avaliação profissional ajuda a compreender se essas manifestações estão relacionadas a uma sobrecarga pontual ou a uma condição que necessita de tratamento. “Quando a pessoa não consegue descansar, começa a se afastar das pessoas ou perde o prazer por coisas que costumavam fazer bem, é um sinal de que vale parar e olhar com mais cuidado para o que está acontecendo”, afirma a médica. A prevenção envolve tanto o acesso ao atendimento quanto as condições em que as pessoas trabalham. Em documento atualizado em setembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta excesso de tarefas, jornadas prolongadas ou inflexíveis, insegurança no emprego, discriminação, assédio e pouco apoio das chefias entre os riscos à saúde mental. O receio de demonstrar fragilidade pode dificultar a busca por atendimento. Segundo a psiquiatra, não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar orientação. “Muita gente tenta seguir a rotina acreditando que precisa dar conta de tudo ou que aquilo vai passar sozinho. Não é preciso chegar ao limite para procurar atendimento. Quanto antes conseguimos entender o que está acontecendo, mais cedo é possível iniciar o cuidado adequado. Procurar ajuda não significa que a pessoa fracassou ou não conseguiu lidar com a própria rotina. É uma forma de cuidado”, afirma Ana Paula. Estresse Uma resposta do organismo a pressões ou situações que exigem adaptação, como dificuldades financeiras, conflitos familiares e sobrecarga de trabalho. Em certa medida, ajuda a enfrentar desafios, mas, quando intenso ou prolongado, pode provocar tensão muscular, dores de cabeça, irritabilidade, alterações do sono e dificuldade de concentração. Não significa necessariamente um transtorno mental, mas pode comprometer a saúde e agravar sintomas de ansiedade e depressão. Ansiedade Está ligada à antecipação de ameaças ou acontecimentos futuros. É natural antes de provas, entrevistas ou situações importantes, mas merece atenção quando se torna excessiva, persistente e interfere na rotina. Pode causar preocupação constante, inquietação, palpitações, dificuldade para relaxar e comportamentos de evitação. O diagnóstico de um transtorno depende da intensidade dos sintomas, do sofrimento e dos prejuízos à vida. Depressão Caracteriza-se por alterações persistentes do humor, como tristeza, vazio e perda de interesse ou prazer em atividades antes significativas, condição chamada anedonia. Também pode provocar falta de energia, alterações do sono e apetite, dificuldade de concentração, culpa e desesperança. Os sintomas costumam ocorrer quase diariamente por pelo menos duas semanas, mas o diagnóstico exige avaliação clínica. Sofrimento intenso justifica buscar ajuda antes disso. Burnout Síndrome associada especificamente ao estresse crônico no trabalho, classificada pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional. Envolve três características: esgotamento, distanciamento mental ou atitudes negativas em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. Cansaço isolado não caracteriza burnout. A avaliação deve considerar as condições de trabalho e investigar possíveis transtornos de ansiedade, depressão ou outras condições. *Jornalista especialista em saúde