Atualmente, ele é o querido Rabicó, na nova versão de O Picapau Amarelo (Arquivo Pessoal) Com mais de duas décadas de trajetória nos palcos, na TV e na publicidade, Adilson de Carvalho é um nome que carrega versatilidade, carisma e representatividade. Nascido em Santos, onde iniciou sua formação, o ator construiu sua carreira com dedicação, humor e talento, destacando-se em projetos como Os Roni, Tomsonaro Digital e, atualmente, como o querido Rabicó na nova versão de O Picapau Amarelo. Nesta entrevista, ele relembra os tempos de criança em que ensaiava chorar na frente do espelho, fala sobre a importância da diversidade na atuação e compartilha conselhos valiosos para quem sonha em seguir o mesmo caminho. Você iniciou sua carreira há mais de 20 anos em Santos. Como foi esse começo e o que te motivou a seguir a carreira artística na sua cidade natal? Sempre achei interessante todo tipo de apresentação artística, tanto no teatro quanto na televisão. Olhava para a TV e queria fazer parte daquele universo e um dia atuar na TV, foi aí que descobri que o teatro era o pontapé inicial para trilhar a carreira de ator. Na época, fui no Teatro Municipal de Santos para saber sobre algum curso de teatro, mas não tinha nenhum disponível, pois as turmas já tinham iniciado e só haveria novas vagas no próximo ano. Saí, fui até a Cadeia Velha e lá achei um panfleto falando de um curso para atores na escola Tescom, onde iniciei tudo e lá fiquei alguns anos. "Cresci assistindo às histórias do Sítio do Picapau Amarelo na TV Globo" (Arquivo Pessoal) Você sempre quis ser ator? Quando criança, tinha uma mania estranha de ficar na frente do espelho fazendo caras e bocas, e até mesmo ficar treinando como chorar de verdade. Uma tia chegou a falar para minha mãe me levar ao psicólogo, porque isso não era normal. Eu falava que estava fazendo novela. Mas quando comecei a entender mais as coisas, já tinha na minha cabeça que queria ser ator e aparecer na TV. Sempre fui apaixonado pela televisão e desde criança ficava fascinado com esse aparelho curioso. Você foi parte da escola de atores do Tescom e logo foi indicado como Melhor Ator do Ano. Quais experiências desse período formativo o ajudaram a se destacar? Eu só tenho boas lembranças, muito carinho e respeito desta época que comecei a minha formação. No ano 2000, tinha uma premiação chamada Prêmio Plínio Marcos. Nele, a classe artística indicava os melhores espetáculos, atores, diretores e elegiam os melhores do ano. Para minha surpresa, fui indicado como Melhor Ator de 2000, ao lado do meu diretor e mestre Pedro Norato. Na ocasião não levei o prêmio, mas serviu de inspiração até os dias de hoje. Não acreditava que estava concorrendo a um prêmio ao lado de quem me ensinava. Anos depois, fui indicado e ganhei outros prêmios em festivais de teatro. Você ainda mora em Santos? Como a cidade e sua cultura influenciam o seu trabalho? Ainda moro sim na região. Nunca tive o interesse de sair da Baixada Santista para morar em outro lugar, pois isso nunca me atrapalhou em absolutamente nada. Normalmente, quando faço um trabalho que dure mais tempo, procuro me hospedar na cidade onde a gravação será realizada, se for preciso. A maioria das produções acontece no eixo São Paulo - Rio de Janeiro. Nasci em Santos e quantos nomes saíram desta cidade, que é um celeiro de grandes talentos. Em sua carreira, você teve a oportunidade de trabalhar em programas de visibilidade como Os Roni e Tomsonaro Digital. O que esses trabalhos significaram para seu crescimento profissional e como foi trabalhar ao lado de humoristas como Tom Cavalcante? Foi um presente inesquecível. Qualquer trabalho ou participação, por menor que seja, agrega experiência e conteúdo para o nosso portfólio. Sempre tive uma ligação muito forte com a comédia e dividir cena com um ícone do humor como o Tom Cavalcante foi realmente uma aula de atuação e profissionalismo. Sem contar com a generosidade dele, não me esqueço de um momento que ele parou a cena e pediu para que o cinegrafista mudasse o enquadramento para me pegar mais de frente e valorizar a minha participação. Isso é um gesto nobre, que dificilmente vemos por aí. Só admiração e respeito por ele. Hoje, você está interpretando o personagem Rabicó na série O Picapau Amarelo. Como é interpretar um personagem tão querido e o que o público pode esperar dessa nova temporada? Cresci assistindo às histórias do Sítio do Picapau Amarelo na TV Globo e nem nos meus melhores sonhos imaginei que um dia poderia dar vida ao Rabicó. Estar na série O Picapau Amarelo é, sem dúvida, a realização de um sonho de infância. O mais gratificante é o sentimento de carinho e nostalgia dos adultos, pela volta desta obra emblemática da nossa literatura brasileira, e a aceitação incrível das crianças. Minhas redes sociais foram invadidas por seguidores mirins de tudo que é lugar do Brasil. Não tem dinheiro que pague o olhar inocente e sincero de uma criança. Essa segunda temporada está com muito mais interatividade, lançamentos de clipes musicais, com participações especiais de outros personagens bem conhecidos do mundo infantil. A série está no streaming +SBT e no SBT. Agradeço muito ao diretor Jefferson Cândido e toda sua equipe por me deixarem fazer parte deste trabalho lúdico, que ultrapassa gerações. Além de sua carreira na TV e teatro, você tem uma vasta experiência em publicidade. Recentemente, atingiu a marca de mais de 100 comerciais. Como se sente ao olhar para essa marca? Confesso que fiquei bem emocionado e veio um filme na minha cabeça. Quando comecei a batalhar neste mercado da publicidade, pensei em desistir várias vezes, pois eu até era chamado para alguns testes, ficava na maioria das vezes “editado” (quando o ator está entre os selecionados para aprovação do filme publicitário), mas nada acontecia. Acho que cheguei a fazer mais de 15 testes para conseguir aprovar meu primeiro comercial com veiculação em rede nacional. Muita insistência e uma boa relação com as agências de atores, agentes, produtores de elenco e diretores me fizeram chegar até aqui. Adilson: “Fui até a Cadeia Velha e, lá, achei um panfleto falando sobre um curso para atores na escola Tescom, onde iniciei tudo" (Arquivo Pessoal) Você tem sido uma referência para papéis que fogem dos estereótipos tradicionais e outros tipos fora do padrão. Como vê o cenário atual da atuação para essas representações e a importância de quebrar esses estigmas na indústria audiovisual? Fico extremamente feliz quando existe um determinado trabalho que tem o meu perfil específico, ou seja, gordinho, baixinho, com pegada de humor, mais caricato, e que sou consultado por mais de duas ou três agências para este mesmo trabalho. Só pelo fato de ser lembrado e selecionado para um determinado teste, já me sinto muito agradecido. De uns anos para cá, o mercado vem mudando bastante, o que é motivo de orgulho e satisfação, afinal de contas vivemos numa sociedade com muita diversidade. Sentir-se representado numa novela, numa série ou num comercial de televisão é gratificante e inspirador para milhares de pessoas que sonham um dia estrelar um trabalho na televisão. Quero muito mais que outros gordos, magros, carecas, pretos, homossexuais, PCDs e autistas se sintam representados e não sejam invisíveis, algo ruim que aconteceu durante muitos anos. Tem espaço e mercado para todo mundo, é só correr atrás que qualquer pessoa hoje pode estrelar uma campanha, mas vale lembrar que estudar a atuação é sempre o melhor caminho e vai ajudar muito. Que conselho você daria para quem está começando a carreira, especialmente para os jovens que aspiram seguir o mesmo caminho artístico que você? Parece clichê o que eu vou falar, mas estudar sempre vem em primeiro lugar. Estudo e disciplina são fundamentais para uma carreira promissora. Hoje, a maioria dos jovens tem uma vitrine espetacular nas mãos, que é o celular e suas redes sociais. Muitos produtores e diretores estão sempre de olho em novos talentos, e deixar sempre a sua rede social atrativa é um ótimo caminho para começar e mostrar todo seu talento, seja cantando, atuando, dublando etc. Outra dica é que, na maioria das cidades brasileiras, há cursos de teatro que são gratuitos e podem fazer toda a diferença na sua colocação no mercado de trabalho. Nunca desistir e persistir, pois o não de hoje pode virar o sim de amanhã.