A morte de Lô Borges veio como um trem puxado por lembranças: aquele “Trem Azul” de melodia fugidia, tão suave e firme, agora parece silenciar sobre os trilhos da nossa memória. Quando soube da notícia, me vi flutuando por paisagens sonoras, ressoando cada acorde como se ele tivesse ecoado em mim desde o princípio, porque, de certa forma, é isso que os grandes artistas fazem: habitam nossas vidas de tal jeito que quando partem, a ausência pesa como uma fresta nos olhos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ferreira Gullar dizia, em sua lucidez poética: “A arte existe porque a vida não basta.” E como isso nos toca agora, à beira da partida: a vida é densa, carregada de dias iguais, de cansaço, de notícias duras. A arte de Lô, sua voz, suas harmonias, suas composições junto com Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, era essa fresta: uma escada para outro céu, uma janela para a imensidão. Penso em “Tudo Que Você Podia Ser”, e me vem a ternura de uma promessa, um futuro possível. A letra, tão sutil, sugere uma esperança que persiste mesmo quando tudo parece se fechar. É justamente nesses momentos difíceis, nas derrotas e nas perdas, que a música nos lembra de que podemos ser mais, podemos sonhar. A criação de Lô era essa ponte entre o que somos e o que ainda podemos vir a ser. E há “Nuvem Cigana”, o nome já traduz saudade e movimento, como se Lô fosse sempre itinerante, entre mundos, entre nós. Sua música levava a gente para longe, sem sair do lugar, embarcando em melodias que transportavam corações para horizontes distintos. Era preciso, agora mais do que nunca, ouvir essa canção para sentir que a partida física não apaga a presença que permanece. Quando ouço “A Via-Láctea”, imagino Lô olhando para o céu, para estrelas que dançam como notas, para galáxias de acordes que ele ajudou a formar. Há algo de grandioso na sua arte: não era apenas canção, era constelação, pequenas luzes brilhando no escuro, guiando quem vive e quem ouve. Na dureza dos nossos dias, essas estrelas são essenciais. E no suave balanço de “Vento de Maio”, reconheço a delicadeza de quem sabe que a vida é feita de estações. Esse vento traz renovação, traz memória, traz a sensação de que, mesmo com tantas perdas, é possível reconquistar algo: a leveza, o frescor, a inspiração. Lô nos lembrou de que não estamos sozinhos, de que a arte nos encontra, nos levanta, nos transforma. A frase de Gullar, então, nos ressoa profundo: a vida, por si só, não basta, e a arte existe para preencher nossas fendas. Agora, com a ausência de Lô Borges, esse preenchimento se torna ainda mais urgente. Sentimos que a vida, no seu ritmo áspero, precisa da doçura dos seus acordes, da sua poesia musical. Talvez ele tenha partido, mas suas canções permanecem como lenha acesa, iluminando nossos dias cinzentos. Suas melodias nos convocam a cantar junto, a resistir, a sonhar. A arte existe porque, sem ela, a vida ficaria mais vazia, e Lô nos deu tanto, justamente para que nunca nos faltasse esse sopro de transcendência. *Alessandro José Padin Ferreira é escritor, professor universitário e jornalista.