Em um ano de lançamentos agitados, A Grande Viagem da Sua Vida (A Big Bold Beautiful Journey) é um respiro. O drama romântico costurado na fantasia nos leva a refletir sobre a nossa própria jornada pessoal em um ritmo mais lento e contemplativo. Faz isso usando o melhor dos pretextos: o amor. Na trama, o sentimento que nasce e cresce à revelia dos apaixonados é o remédio para a autocura, para a libertação do cárcere do medo que usa a solidão como falsa proteção emocional. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Com roteiro escrito por Seth Reiss (O Menu, 2022) e direção de Kogonada, a história é centralizada em David, interpretado por Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin, 2022), e Sarah, vivida por Margot Robbie (Barbie, 2023). David e Sarah, dois solteiros que preferem viver sozinhos, acabam se conhecendo em uma festa de casamento. Ali, a conexão acontece e entra em cena um elemento importante da trama: a chuva. Afinal, a chuva lava a alma, não é mesmo? Falarei sobre ela mais à frente. Amantes das viagens solo,David e Sarah coincidentemente alugam carros na mesma agência, que tem um quê de magia. À mercê de um suposto acaso, eles se encontram em uma lanchonete e, com a ajuda do universo, dão início àquela que será a melhor viagem de suas vidas, juntos. Seguindo no mesmo carro, eles param na floresta para explorar a natureza e avistam uma porta vermelha. As portas e a cor vermelha também são símbolos-chaves no desenrolar deste conto surrealista. Cada porta que eles abrem os leva ao passado de cada um. Ao revisitar um acontecimento que ficou no tempo, mal resolvido, com a maturidade de agora, eles têm a chance de reinterpretar os fatos, curar os traumas e retirar dos ombros o peso da culpa. O roteiro segue a mesma lógica do cérebro, que se orienta por imagens, atribuindo significados subjetivos a objetos e coisas. O filme é esteticamente muito bonito, colorido e com uma direção de arte primorosa que encaixa os elementos simbólicos nas cenas de forma irretocável. Cada cena é repleta de significados, informações e falas objetivas que se conectam aos dramas dos personagens. A estrada, o carro, a chuva, as portas, as cores primárias (vermelho, amarelo e azul) em destaque, a casa dos pais, uma ponte, um museu e um GPS inteligente que indica o caminho a seguir, fazendo o contraponto entre livre arbítrio e destino, são elementos que compõem o enredo de forma bem destacada. A construção estética do longa-metragem remete aos musicais da era de ouro do cinema, especialmente das décadas de 1950 e 1960. Sobre a chuva, há uma feliz referência ao clássico musical Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952) sem releitura da cena icônica de um Don Lockwood (Gene Kelly) apaixonado por Kathy Selden (Debbie Reynolds) cantando e dançando sob a chuva, mas igualmente com o pretexto de traduzir a alegria. Em A Grande Viagem da Sua Vida, a chuva é o indício do reencontro de cada personagem consigo mesmo, de alma leve e limpa. Transmite a sensação do alívio de voltar para casa, livre dos perigos criados na própria mente. Vale destacar ainda a trilha sonora de Joe Hisaishi, que cria toda a aura mágica do filme, além das participações especiais de Kevin Kline e Phoebe Waller-Bridge como os agentes de locação de veículos – ou será do destino? A Grande Viagem da Sua Vida é uma deliciosa e oportuna metáfora, sofisticadamente delicada, sobre as armadilhas que criamos quando deixamos as dores da alma falarem mais alto, nos impedindo de crescer, quando deveríamos dar mais vazão às emoções que nos fazem sentir prazer em viver. Embarque nessa jornada você também. Assista ao filme no cinema e tenha uma ótima semana!