Plantas, velas perfumadas e difusores complementam o clima ( Adobe Stock) Um dia desses, conversando com meus alunos, ouvi uma coisa que ficou comigo depois que a aula terminou. Falávamos sobre a vida, sobre as relações, sobre essas coisas que aparecem no meio de uma conversa sem pedir licença, quando alguém contou que mandava flores para a pessoa amada. Outro disse que também recebia. Uma aluna sorriu e contou que gostava quando as flores chegavam sem data marcada, como se viessem apenas para lembrar que alguém havia pensado nela. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Uma flor atravessa a cidade dentro de um carro, passa pelas mãos de quem entrega, chega à porta de uma casa e encontra um copo, um vaso, uma mesa. Depois permanece ali durante alguns dias, mudando conforme o tempo passa, até que suas pétalas começam a cair e alguém percebe que também existe uma história naquele desaparecimento. Talvez o amor tenha algo disso. Ele precisa encontrar uma forma de chegar. Tenho visto tanta pressa nos dias que às vezes me pergunto onde guardamos os gestos que pedem tempo. Vivemos diante de telas, respondemos mensagens enquanto caminhamos, conversamos enquanto pensamos na próxima tarefa e carregamos no bolso uma máquina capaz de nos aproximar de qualquer pessoa. Ainda assim, há quem escolha uma flor. Isso me dá esperança. Não aquela que precise de grandes acontecimentos, mas a que aparece quando alguém se lembra. Um café preparado para outra pessoa, uma mensagem antes de dormir, uma fotografia guardada na carteira, uma música enviada porque trouxe à memória um rosto. São gestos que parecem pequenos até o instante em que chegam a alguém. Erich Fromm escreveu: “O amor é uma arte”. Penso nessa frase quando observo esses jovens falando de flores com a naturalidade de quem sabe que gostar de alguém também envolve aprender a demonstrar. Toda arte pede atenção. O amor talvez peça ainda a disposição para reparar no outro, conhecer seus silêncios, lembrar aquilo que o faz sorrir e perceber quando uma flor pode dizer o que a voz não consegue. Ailton Krenak escreve sobre a vida como uma experiência de relação, lembrando que pertencemos a uma rede que envolve pessoas, animais, rios, árvores e a própria terra. Quando penso nisso, a flor que alguém entrega deixa de ser apenas um presente. Ela carrega um pedaço do mundo e chega às mãos de uma pessoa como uma pequena celebração da existência. Talvez por isso eu tenha prestado tanta atenção naquela conversa. Existe um país inteiro onde a ternura ainda mora nas coisas simples. Ela aparece na cozinha de uma avó, no cuidado com uma planta, na cadeira colocada na calçada, na conversa que atravessa a tarde, na mão que ajeita a roupa de uma criança, na comida preparada para quem vai chegar. São gestos que atravessam gerações sem precisar de manual. Tenho receio de que a vida nos faça esquecer deles, de que o excesso de velocidade nos convença de que tudo precisa servir para alguma coisa e que a ternura passe a parecer um luxo. Por isso gosto de saber que meus alunos mandam flores. Eles me lembram que ainda existe gente disposta a cultivar aquilo que não pode ser medido, que ainda acredita que uma flor pode mudar o dia de alguém, que uma palavra pode permanecer na memória e que o afeto precisa de espaço para respirar. Talvez seja esse o cuidado que nos cabe agora: preservar esses pequenos gestos, como quem protege uma chama do vento.