Há derrotas que nos deixam sentados à beira da cama, olhando para os sapatos como quem já não sabe muito bem para onde ir. Os planos continuam espalhados pela mesa, as palavras ditas ainda ecoam em algum canto da memória e o futuro, que até ontem parecia ter endereço certo, passa a ser uma folha em branco. Demora um pouco até que a gente consiga abrir a janela e deixar o vento entrar. Existe uma espécie de luto nos projetos que não vingam. Choramos o emprego perdido, o amor que tomou outro rumo, a oportunidade que escapou por um detalhe, a viagem que ficou guardada na gaveta. Choramos também aquilo que havíamos imaginado ser quando tudo desse certo. Porque, às vezes, a derrota leva consigo uma versão de nós mesmos que já estava pronta, com nome, sobrenome e lugar reservado à mesa. E o que fazer com os dias que se seguem? Há quem tente remendar os planos, recuperar os pedaços, insistir na mesma porta até que os dedos doam. Outros precisam de um tempo para reaprender os caminhos da própria casa, reconhecer o gosto do café, voltar a caminhar sem destino, descobrir que ainda existe curiosidade no olhar. A vida pede esse intervalo, essa espécie de silêncio em que a alma se ocupa de juntar os seus pertences. Guimarães Rosa escreveu em Grande Sertão: Veredas: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Penso que as derrotas também pertencem a esse percurso, nos encontram quando acreditávamos conhecer o mapa e nos obrigam a olhar novamente para a paisagem. Há caminhos que só aparecem quando deixamos de perseguir aquele que havíamos escolhido. Às vezes, basta um gesto, uma decisão pequena, a coragem de experimentar outra vez para que o mundo recupere parte de seu mistério. Talvez o encantamento de começar esteja justamente aí. No primeiro dia de um trabalho, quando ainda não conhecemos os nomes de todos. Na mudança para uma cidade onde as ruas guardam surpresas. Na primeira página de um caderno, na matrícula de um curso, no encontro com alguém que nos faz rir de um jeito esquecido. Há um frescor nessas experiências, uma pequena vertigem de quem ainda não sabe o que vai acontecer. A infância conhece bem essa sensação. Basta entregar uma caixa vazia a uma criança para que ela invente um navio, uma casa, uma estação espacial. O mundo inteiro cabe naquele pedaço de papelão porque ainda há uma disposição imensa para descobrir. Com o passar dos anos, vamos acumulando certezas, compromissos e receios, até que a novidade parece exigir uma autorização que nunca chega. Uma derrota, por mais dolorosa que seja, pode devolver alguma coisa dessa antiga disposição. Não por milagre, nem porque toda perda esconda uma recompensa. Há feridas que demoram, despedidas que permanecem e sonhos que precisam ser enterrados com cuidado. Ainda assim, chega uma manhã em que sentimos vontade de experimentar alguma coisa, de conhecer alguém, de aprender um ofício, de partir para um lugar desconhecido. É a sede pelo amanhã. Essa inquietação que nos faz procurar um livro, comprar uma passagem, aceitar um convite, plantar uma muda cuja sombra talvez nunca nos alcance. É o desejo de participar novamente da vida, de permitir que ela nos surpreenda com suas pequenas desordens e seus encontros improváveis. *Escritor, professor universitário e jornalista