Primeiro longa da história filmado integralmente com câmeras IMAX (Reprodução) Christopher Nolan retirou suas estatuetas do Oscar do escritório para escrever o roteiro de A Odisseia. Ele disse que os prêmios o intimidavam. É surpreendente que isso tenha partido de um cineasta que conquistou os Oscars de Melhor Filme e Melhor Direção por Oppenheimer, vencedor de sete prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em 2024. Contudo, era nada menos que o poema de Homero, escrito há quase 3 mil anos, que ele pretendia transformar em um espetáculo visual ambicioso, épico e inovador, sem abrir mão de uma linguagem acessível ao grande público. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ainda que Nolan quisesse faturar em bilheteria com uma releitura de uma história conhecida para recuperar o vultoso investimento na superprodução, é louvável que tenha estimulado o interesse popular por esta epopeia antiga, contemplada geralmente por eruditos e intelectuais. Entretanto, Nolan privilegia a fotografia, o som e a trilha sonora mais do que o próprio roteiro. O diretor britânico não reinventou A Odisseia, mas recalculou algumas rotas sobre o difícil retorno de Odisseu, rei de Ítaca, para casa após vencer a Guerra de Troia, narrada em A Ilíada, poema também atribuído ao poeta grego Homero. Nolan emprega no seu mais novo épico premissas já vistas em A Origem (2010) e Interestelar (2014), como o drama familiar e a crise de consciência de protagonistas que aceitam missões arriscadas para salvar a família. Ele faz o mesmo com Odisseu. Se, no poema original, a conquista de Troia representa a glória para o estrategista, no filme o mentor do massacre de um povo e criador do infame Cavalo de Troia é consumido pela culpa e pelo remorso. A adaptação do enredo gerou controvérsias, mas a aprovação do visual é unânime. O filme foi integralmente filmado com câmeras IMAX analógicas de 70 milímetros. As películas convencionais têm 35 milímetros. A tecnologia amplia a nitidez e realça as cores. O longa tem 2h50. Filmá-lo em película foi uma verdadeira odisseia, mas o resultado é espetacular. A textura devolve ao espectador a aura clássica de épicos da Era de Ouro de Hollywood, como Ben-Hur e Os Dez Mandamentos. Tudo em cena é real. As tomadas foram filmadas em locações no Marrocos, Grécia, Itália, Islândia, Escócia e Saara Ocidental. O Cavalo de Troia foi construído, as embarcações navegaram no mar e a produção dispensa computação gráfica (CGI), conferindo uma imersão nostálgica e impressionante. Nolan cria uma sequência inédita ao mostrar o interior do Cavalo de Troia, com soldados amontoados e mergulhados em água salgada e suja pelas próprias fezes. É fato que o elenco estelar — Matt Damon (Odisseu), Anne Hathaway (Penélope), Tom Holland (Telêmaco), Zendaya (Atena), Robert Pattinson (Antinous), John Leguizamo (Eumeu), Lupita Nyong'o (Helena) e Charlize Theron (Calypso) — dá peso ao drama épico, mas é de Samantha Morton, como a feiticeira Circe, a atuação mais memorável. Outro protagonista é Ludwig Göransson. Sua trilha sonora conduz o espectador. A música cresce nas batalhas, desacelera nas reflexões e intensifica cada emoção, à semelhança de grandes compositores do século XX, como Max Steiner e John Williams. A Odisseia deverá concorrer ao Oscar de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Som, Direção de Arte, Figurino, Montagem, Elenco e Atriz Coadjuvante (Morton), conquistando especialmente os prêmios técnicos. Talvez Nolan estivesse certo ao esconder seus Oscars. Eles lembram o que ele já conquistou, mas A Odisseia mostra que o seu horizonte criativo é infinito. Como ensinava o filósofo grego Sócrates, a sabedoria está em reconhecer que sempre há algo novo a aprender. A Odisseia confirma que o cineasta é um eterno aprendiz, fascinado pelo extraordinário. Em sua busca por novos desafios, ele escreveu mais um capítulo inédito, ampliando seu legado na história do cinema. Boa semana!