Nostalgia se tornou um grande negócio na indústria do cinema (Divulgação) Hollywood está sem ideias ou mudou o foco para a nostalgia como um modelo de negócio ainda mais lucrativo? A Meca do Cinema parece apostar em uma fórmula quase infalível para levar o público de volta às salas. Em vez de investir mais em histórias inéditas, está olhando cada vez mais para o passado. Será que o público está mais interessado na sensação de reviver algo do que em conhecer o novo? Fato é que as continuações de franquias aclamadas têm estourado as bilheterias globais. Lançado 36 anos após Top Gun, Top Gun: Maverick, com Tom Cruise como produtor e protagonista, respondeu pela maior bilheteria de 2022. O Diabo Veste Prada 2, deste ano, com o retorno de Anne Hathaway e Meryl Streep aos papéis originais, mais que dobrou o faturamento do primeiro filme, lançado em 2006. Da Magia à Sedução 2 estreia na próxima quinta-feira cercada pela expectativa dos fãs. Sandra Bullock e Nicole Kidman retornam às personagens que conquistaram uma geração, 28 anos após o lançamento do primeiro longa. Sempre movido pela necessidade de velocidade, Cruise anunciou que vestirá novamente o macacão de Cole Trickle em Dias de Trovão 2, ao lado de Anne Hathaway. A estreia está prevista para 2028, e o filme pode surpreender nas bilheterias impulsionado pela nostalgia. Há 36 anos, porém, Dias de Trovão (1990) teve recepção morna. A estratégia por trás do investimento em continuações, reboots e remakes é clara. A indústria calculou que despertar emoções e memórias de um tempo que não volta mais pode ser um bom negócio. Os faturamentos comprovam. Os estúdios não estão só produzindo filmes, mas vendendo lembranças. Personagens e histórias são como canções que marcam nossas vidas. Distribuidoras e exibidoras também apostam alto nos relançamentos, abrindo sessões para franquias como Harry Potter, Crepúsculo e Top Gun, além de exibir clássicos modernos como Diário de uma Paixão e La La Land. Isso não significa que Hollywood tenha deixado de criar histórias originais, mas revela uma mudança na relação entre risco e investimento. Produzir um filme custa caro. Apostar em uma história desconhecida significa tentar convencer o público a pagar para descobrir algo que ainda não conhece. Uma franquia aclamada, por outro lado, já chega com aceitação e impulsiona a venda de roupas, brinquedos e colecionáveis. Hollywood também já investiu muito em remakes de filmes de sucesso produzidos em outros países. Cidade dos Anjos (1998), por exemplo, é uma versão do alemão Asas do Desejo (1987); A Casa do Lago (2006), do sul-coreano Il Mare (2000); e Vanilla Sky, do espanhol Abre los Ojos. Hollywood sempre apostou na nostalgia. A diferença é que, agora, a lógica comercial de máquina do tempo assume uma escala industrial. O passado virou um catálogo inesgotável e lucrativo. Há um lado positivo. Algumas produções conseguem conquistar uma nova geração, como é o caso de Top Gun: Maverick. Em suma, enquanto a indústria norte-americana resgatar marcas bem-sucedidas do passado, o público deverá ir ao cinema não necessariamente para rever o filme, mas, talvez, para reencontrar a si mesmo. Como Totó, interpretado por Jacques Perrin, já adulto, em Cinema Paradiso (1988). Em uma das cenas mais antológicas da sétima arte, o então cineasta, já na meia-idade e sentindo-se vazio por dentro, assiste à montagem de cenas de beijos de filmes clássicos, antes censuradas, que o velho amigo Alfredo havia guardado para ele antes de morrer. É o reencontro com uma parte de sua própria história, com o cinema, com a infância e com um tempo que já não existe, ao som da inesquecível trilha sonora composta por Ennio Morricone. Talvez não haja curiosidade pelo novo que supere a força daquilo que nos faz lembrar quem fomos. Vá ao cinema. Boa semana!