No caminho, a tristeza pesa minha cabeça. Pende para frente como que provocando a potência do pescoço. Tento reerguê-la para facilitar a direção do carro, mas o estômago vazio pelo luto emana a mesma sintonia e a puxa para baixo. O destino é Embu das Artes, cidade conhecida pela venda de móveis rústicos. Não estou indo fazer compras, porém. Muitas histórias cruzam minha mente enquanto dirijo ajudando o pescoço a se equilibrar debaixo da cabeça que me pesa. Lembro-me de quando nos conhecemos. Seu cabelo preso num coque baixo insinuava a importância do momento. Depois de 40 anos trabalhando em uma mesma família, o ciclo se encerrou e lá estava você com uma carta de recomendação na mão pronta para cuidar de minha mãe. Na primeira semana de trabalho, uma grande prova: quase a viu morrer. E nesse quase-morre você segurou cada colher com comida conduzindo à boca, ajudou no banho, segurou na mão dela quando sentia dor. Eu pedia com o olhar, você ficava sem reclamar. Abro a janela do carro para sentir um pouco o vento que corre apressado conforme a pressão do meu pé no acelerador. Não sei o que vou encontrar, então meu peito aperta. Quero te ver pela última vez, mas tenho medo de conferir que sua força, que a mim me parecia eterna, se exauriu. Chego ao local indicado. Há gente suficiente para eu ter certeza de que você foi muito amada. Desligo o carro e fico olhando a chave balançar, de um lado a outro, como um pêndulo de relógio de parede, contando os segundos da esperança fantasiosa que sustento de te encontrar viva. Foi você que me deu a notícia: “Ela passou muito mal. Venha logo!”. Sua voz denunciava a morte próxima. Depois que minha mãe se foi nos vimos algumas vezes. Eu te visitava quando podia, te levava algum mimo, você fazia o café, comíamos bolo, conversávamos. Numa dessas visitas, achei no teu quintal uma planta bonita. “Toma, leva”, você disse. Acomodei-a num jarro de água e decidi que moraria na mesa de jantar. Trocava a água uma vez por semana. Assim foi por dois anos. A cada sete dias, a planta ganhava um mergulho em águas cristalinas. Até que algo começou a surgir no núcleo, se erguendo como um edifício. Dele, “janelas” se abriram em várias florzinhas que só apareciam a noite, para perfumar minha casa. O ritual da dama da noite durou quase quinze dias. Só o amor faz essas coisas. No cemitério, estou temerosa. Não sei o que dizer para sua família e ao mesmo tempo prefiro ouvir. Não entendi como você se foi. A surpresa veio no post no seu perfil no seu Facebook. “Não pode ser verdade, é alguma brincadeira!”, cogitei por poucos segundos na tentativa de escapar da triste realidade. O espanto se apresentou como um escorregão súbito no chão molhado, penso agora sentada no carro. Mandei mensagem dias antes, depois de receber “Bom dia!”. Respondi dizendo que sentia saudades e queria visitá-la. Você me respondeu no dia seguinte em um áudio de 0:35 segundos. Trinta e cinco segundos. A última vez que falou comigo em vida durou trinta e cinco segundos. A voz embargada deve ter pesado mais que minha cabeça porque se calou enquanto segurava as lágrimas. Disse que estava mais ou menos, mas ficaria melhor, que aquele dia era o dia do seu aniversário e para que eu ficasse com Deus. Escuto agora novamente à gravação. É duro ouvir a voz de quem já se foi porque essa voz nunca mais será dita, essa fala nunca mais terá voz, essa voz já morreu então é penoso escutá-la de novo. Tomo coragem e saio do carro. Você parece serena em um vestido azul de bolas brancas como as de pingue-pongue, com uma graciosa gola redonda. Simples e genuína, como você. O IBGE diz que até 2050, o total de pessoas com mais de 60 anos deve saltar de 9,5% para 21,8% e ultrapassar 40 milhões. Então, vamos nos tornar provavelmente em velhos doentes precisando de outras pessoas que nos cuidem. Minha homenagem com esse texto é para quem cuidou da minha mãe e para quem cuida de tantos idosos acamados. Você se foi, Guiomar, mas sempre viverá no meu coração.