Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (Reprodução) Um dia desses, um professor amigo veio desabafar. Estava perplexo com a reação de seus alunos, todos adultos, ao exibir Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. A turma protestou, alegando que o filme era violento demais. “Não esperava esse tipo de incômodo”, ele me disse. “Achei que estávamos ali justamente para falar sobre isso.” Fiquei com aquela conversa fermentando por dias. O que me incomodou não foi só a surpresa dele, mas o fato de que, em pleno século 21, a sala de aula, esse espaço que deveria ser o último reduto do pensamento crítico, vem se esvaziando como fórum de debate, especialmente sobre temas incômodos, como a violência que atravessa a sociedade com uma naturalidade assustadora. Os mesmos alunos que se chocaram com a violência estilizada de Kubrick são os que percorrem seus feeds diariamente, onde o grotesco e o absurdo são servidos em alta resolução e com trilha sonora. Decapitações viram meme, brigas de rua ganham curtidas, linchamentos viram reels. Tudo embalado num misto de sensacionalismo e indiferença. A violência ali, no espaço das redes, é real, bruta, sem roteiro e, curiosamente, não causa revolta. Apenas views. O filósofo francês Guy Debord já alertava, ainda em 1967, que o espetáculo substituiria a realidade. E, no espetáculo, não se debate: se consome. Assim, talvez seja mais fácil se indignar com uma ficção provocadora do que com a crueza banalizada da vida real. É como se a sala de aula tivesse deixado de ser um lugar de enfrentamento intelectual e se tornado um território neutro, onde o conforto é mais desejado que o confronto. A obra de Kubrick, adaptada do livro de Anthony Burgess, não glorifica a violência; ela nos força a encará-la, a pensar sobre seus mecanismos sociais, sobre o que somos quando a moral vacila. E isso, convenhamos, é função da arte e também da educação. A escritora Susan Sontag dizia que, diante do excesso de imagens violentas, tornamo-nos “turistas da dor alheia”. Mas há um paradoxo: quanto mais expostos, mais anestesiados. E, anestesiados, perdemos a capacidade de nos indignar com o real, mas nos revoltamos com o que exige interpretação. Bauman falava de uma modernidade líquida, onde tudo escorre antes de se fixar. A indignação, também. Talvez por isso a sala de aula venha sendo substituída por um tribunal de opiniões rápidas, onde pensar é arriscado, e refletir, um ato quase subversivo. Preferimos gritar no X (antigo Twitter) a dialogar entre quatro paredes. O que era para ser espaço de formação do pensamento virou território de receio, receio de ferir suscetibilidades, de parecer inadequado, de ser mal interpretado. E nesse cuidado extremo, corremos o risco de formar uma geração que sabe evitar o desconforto, mas não sabe enfrentá-lo. Que sabe cancelar, mas não sabe argumentar. Quando foi que a escola deixou de ser o lugar onde se podia incomodar? Quando foi que o professor precisou pedir licença para pensar? A violência nas redes, ao contrário da ficção, não nos convida a refletir, ela nos paralisa. E o que não é pensado, se repete. Na tela e nas ruas. No fim das contas, talvez Laranja Mecânica não tenha sido violento demais. Talvez o que seja violento mesmo seja o silêncio.