(Imagem ilustrativa/Pexels) Enquanto eu viajava nas minhas férias de janeiro deste ano, postava fotos, vídeos e informações sobre meu roteiro no Instagram. Era minha primeira vez na Ásia. Fiquei encantada demais e quis dividir com meus seguidores aquela experiência linda que me surpreendia todos os dias. Entre os seguidores tenho muitas alunas e muitos alunos — que viajaram comigo via posts. Um deles enviou uma mensagem dizendo que estava impressionado com os lugares. Mas mais ainda por eu estar viajando sozinha, tão longe de casa. Ele disse que sonhava em fazer o mesmo. O medo da solidão, no entanto, era muito mais forte. Acendeu aqui na minha cabeça de educadora — papel que sempre vai além da sala de aula — um sinal de alerta. Dei uma puxadinha a mais no fio da conversa e descobri que o rapaz, no comecinho dos 20 e poucos anos, teme ficar a sós consigo mesmo. “Minha cabeça não para, pro. Fico ansioso, desconfortável”, disse ele. Lancei o desafio para que escrevesse sobre experiências de primeiras vezes indo sozinho, por lazer, em locais da cidade de São Paulo que gostaria de descobrir. Topou. As aulas voltaram e… não falou mais do assunto. Mas a vida sabe o que faz. E colocou nós dois no mesmo vagão do metrô em uma manhã de terça-feira após a aula. Perguntei como andavam as experiências de solitude — não de solidão. Veio aquele sorrisinho de quem foi pego no flagra. Não tinha iniciado ainda o projeto do “eu comigo mesmo”. Como quem só precisa de um empurrão, logo confessou que estava com dois ingressos para visitar o Museu de Arte de São Paulo (Masp) naquela mesma terça-feira, dia em que a entrada é gratuita para o público em geral (confira o www.bilheteria.masp.org.br). Ele disse que não sabia ainda se iria porque “a mina que eu tô apaixonado tá trabalhando”. O receio de estar só permanecia. Incentivei. Use esse ingresso, vá sozinho mesmo, veja como se sente, entre outras palavras de incentivo-pressão. E lá foi ele. Com medo mesmo. Ansiedade, cabeça a mil. Por vezes, vontade de desistir. “Tô meio que surtando”, me avisava por mensagem a caminho do museu. Horas depois, recebo outra mensagem: “Pro, fuiii. Foi bom, melhor do que imaginei. No começo foi meio surto, mas depois vendo as obras foi tranquilo. Gostei das exposições, vi todos os andares”. A isso seguiram-se fotos nos stories com algumas das peças e instalações que mais chamaram a atenção do jovem. Exatamente aquelas com formas e mensagens que eu julgava que para ele teriam muito sentido, um rapaz de olhar crítico e empático para o mundo. Não sei ainda se meu aluno repetirá a experiência. Mas duas coisas importantes já aconteceram: viu que é capaz e a ansiedade perante a arte foi diminuindo. Sim, esse é um dos mais belos sentidos da arte. E que falamos pouco. Apreciar uma exposição, por exemplo, promove relaxamento e bem-estar. O contato com diferentes expressões artísticas estimula a liberação de dopamina e serotonina, aumentando o prazer e a criatividade. Quem garante é a Organização Mundial de Saúde (OMS), que analisou mais de 3 mil estudos sobre o tema. Os benefícios são variados. Há melhorias na vitalidade, na autoestima, na resiliência, no propósito e na qualidade de vida. Os níveis de estresse diminuem, a socialização cresce. Acompanhar a aventura do meu jovem estudante me lembrou de todas as vezes que a arte também me salvou da dor. Foram muitas. Espero que ele siga descobrindo esse poder e que compreenda que estar bem sozinho é o que nos torna boa companhia. Para si e para quem nos cerca. P.S.: Vamos ouvir Aprendendo a Sobreviver, do Criolo, neste domingo (5)? As canções do artista dão uma excelente playlist para mergulhar nas exposições do Masp.