“O diabetes relacionado à desnutrição foi historicamente muito subdiagnosticado e pouco compreendido”, diz especialista (Freepik) A Federação Internacional de Diabetes (IDF) reconheceu na semana passada uma nova classificação para a doença: o diabetes tipo 5. Antes chamado de “diabetes relacionado à desnutrição”, o quadro costuma afetar adolescentes e jovens adultos magros e desnutridos em países de baixa e média renda. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “O diabetes relacionado à desnutrição foi historicamente muito subdiagnosticado e pouco compreendido”, destaca Meredith Hawkins, diretora fundadora do Instituto Global de Diabetes do Albert Einstein College of Medicine, em comunicado à imprensa. “O reconhecimento desse tipo pela IDF como diabetes tipo 5 é um passo importante para aumentar a conscientização sobre um problema de saúde que é tão devastador para tantas pessoas”. De acordo com Bianca Pititto, professora do Programa de Pós-graduação em Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do Departamento de Epidemiologia, Economia e Saúde Pública da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), as causas da doença ainda não são bem conhecidas. “Mas evidências apontam que uma desnutrição proteico-calórica em fases iniciais da vida pode impactar na formação e/ou proliferação de células pancreáticas – que produzem e liberam insulina no sangue”, diz. “Situações de desnutrição ainda na vida intrauterina também podem contribuir para esse quadro de alteração na formação e funcionalidade de órgãos e sistemas”, afirma. Segundo a professora, estudos indicam que pessoas cujas mães enfrentaram escassez de alimentos durante a gestação têm maior risco de desenvolver diabetes ao longo da vida. O diabetes tipo 2 representa a maior parte dos casos da doença em países em desenvolvimento. Mas, segundo Meredith, cada vez mais jovens estão sendo diagnosticados com diabetes causado pela falta de alimentos. A estimativa é que o diabetes tipo 5 afete de 20 a 25 milhões de pessoas no mundo, principalmente na Ásia e na África. “Os médicos ainda não sabem ao certo como tratar esses pacientes, que muitas vezes não sobrevivem por mais de um ano após o diagnóstico”, afirma. O quadro foi descrito pela primeira vez há 70 anos, e diversas pesquisas posteriores identificaram uma alta incidência da doença em nações empobrecidas. Em resposta a esses relatos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o diabetes relacionado à desnutrição como uma forma distinta da doença em 1985. No entanto, a OMS retirou essa designação em 1999, devido à falta de estudos de acompanhamento e de evidências que a sustentassem. No entanto, um estudo publicado em 2022 na revista Diabetes Care, que teve a participação de Meredith, demonstrou que esse tipo de diabetes é fundamentalmente diferente dos tipos 1 e 2. Antes, acreditavam que a doença estivesse ligada à resistência à insulina. “Mas foi descoberto que pessoas com essa forma de diabetes têm um defeito profundo na capacidade de secretar insulina, algo que não havia sido reconhecido antes”, explica a diretora. Em janeiro deste ano, Meredith e pesquisadores do Christian Medical College, da Índia, organizaram uma reunião internacional para debater a classificação, o diagnóstico e o tratamento do diabetes relacionado à desnutrição. Especialistas de vários países apresentaram estudos a um painel com líderes da IDF e da Associação Americana de Diabetes, que votaram, por unanimidade, pelo reconhecimento da doença. “Tenho esperança de que esse reconhecimento formal como diabetes tipo 5 traga avanços no combate a essa doença há muito negligenciada, que debilita gravemente as pessoas e muitas vezes é fatal”, diz Meredith. RECONHECIMENTO OFICIAL A Federação Internacional de Diabetes (IDF) reconheceu o diabetes tipo 5 como uma nova categoria da doença QUEM AFETA Principalmente adolescentes e jovens magros e desnutridos, em países de baixa e média rendas CAUSA PROVÁVEL Desnutrição desde a infância, até mesmo durante a gestação, pode comprometer o desenvolvimento do pâncreas e a produção de insulina DIFERENÇA CLÍNICA Ao contrário dos tipas 1 e 2, o tipo 5 não está ligado a resistência à insulina, mas à dificuldade do organismo em produzi-la NUMEROS PREOCUPANTES Estima se que entre 20 e 25 milhões de pessoas convivam com esse tipo de diabetes, especialmente na Ásia e na África DESFECHO COMUM Muitos pacientes marrem em até um ano após o diagnóstico, por falta de tratamento adequado NOVO MARCO Estudos recentes comprovaram que o tipo 5 é uma condição única, o que motivou a reconhecimento internacional em 2025 COMPARAÇÃO O diabetes tipo 5 é mais comum que a tuberculose e quase tão frequente quanto o HIV/Aids