Daniel Munduruku é filósofo, mestre e doutor em Educação pela USP, pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor de 70 livros. Já recebeu diversos títulos no Brasil e no exterior. Ele é precursor de um movimento literário iniciado na década de 1990 que ecoa a voz de um grupo minoritário: os indígenas. Contudo, não se trata de um grupo homogêneo, pois há diversas etnias, com línguas e cos-movisões diferentes, que sobreviveram à colonização, vítimas de discriminação e desvalorização há séculos, mas que deixaram um enorme legado para a nossa cultura brasileira. Daniel também é influenciador digital, ator, político (vereador na cidade paulista de Lorena) e militante indígena. Ele esteve em Santos em bate-papo na Casa da Frontaria Azulejada. Como você vê a celebração de 30 anos da sua primeira obra, Histórias de Índio? Quando você iniciou, sabia que chegaria a ser o mais importante escritor de literatura infantil indígena brasileira? Fico muito feliz que eu tenha conseguido ter uma carreira como educador-escritor. Costumo dizer que sou um educador que escreve e um escritor que educa. Não sei se sou o mais importante, mas acredito que obtive o reconhecimento: foram três Jabutis, prêmio FNLIJ, AEILIJ e uma indicação ao prêmio internacional Alma. Você impulsiona outros escritores e ilustradores indígenas a entrarem no mercado. Foi uma escolha sua ou a vida te levou a assumir essa posição? Eu procuro ter a ética do siri. Eles vivem em grupo. Quando você pega um, ele se prende nos outros e todos vão subindo. Acho que isso é viver em coletivo. O mais importante é que consegui furar a bolha do mercado editorial lá nos anos 1990 e isso foi importante para a literatura indígena infantil. Hoje esse mercado cresceu e temos muito mais escritores. Você acredita que a literatura indígena tem esse caráter de resistência, identidade e é uma forma de semear uma relação diferente das crianças com a natureza? Sim. E acredito na literatura para educar. Eu escrevo para crianças, mas sei que atinjo os adultos também. Tenho escrito mais para este público. Como você vê o crescimento do número de escritores e ilustradores indígenas e a procura das editoras? Acredito ser muito positivo. Temos uma diversidade enorme de etnias e isso é uma riqueza cultural muito grande. Escrevermos nossas histórias, as dos povos a que pertencemos, é uma forma de mais pessoas poderem ter acesso a toda essa riqueza. Aldear a literatura é tão importante quanto aldear a política? Sim. Está mais do que na hora de os povos indígenas e afro-brasileiros, quilombolas, periféricos, mulheres, enfim, todos nós termos mais espaço, ocuparmos os espaços de poder. Isso é que vai tornar o Brasil um país mais justo para todos.