Embora esses sintomas possam ser angustiantes para familiares, eles têm explicações médicas e fisiológicas. (Divulgação) A chegada do fim da vida traz uma série de mudanças no corpo humano — e o cérebro é um dos primeiros a reagir. Pacientes em estágios terminais frequentemente apresentam episódios de confusão mental, delírios e até alucinações. Embora esses sintomas possam ser angustiantes para familiares, eles têm explicações médicas e fisiológicas. Estudos científicos mostram que fatores como a redução da oxigenação cerebral (hipóxia), alterações metabólicas e o uso de medicamentos potentes estão por trás desses fenômenos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O que acontece no cérebro nos momentos finais? O cérebro humano depende de um fluxo constante de oxigênio e glicose para funcionar corretamente. À medida que o organismo se aproxima da morte, a circulação sanguínea se torna irregular e a oxigenação do cérebro é reduzida. Esse quadro, conhecido como hipóxia cerebral, pode causar confusão, desorientação e percepção distorcida da realidade. Além disso, o declínio do fígado e dos rins nos estágios terminais da vida prejudica a eliminação de toxinas e interfere na regulação química do cérebro. Como consequência, o paciente pode apresentar estados de delírio, caracterizados por pensamentos desconexos, inquietação e até alucinações visuais ou auditivas. O papel dos medicamentos Nos cuidados paliativos, é comum o uso de sedativos, opioides e outros medicamentos para aliviar a dor, ansiedade e sintomas físicos. No entanto, em doses altas ou em organismos fragilizados, essas substâncias podem alterar o estado mental do paciente. Drogas como morfina, midazolam, fentanil e antidepressivos podem atuar sobre neurotransmissores como serotonina e dopamina, intensificando confusões, sonolência e visões irreais. É por isso que equipes médicas e familiares devem acompanhar de perto qualquer mudança comportamental, ajustando doses sempre que necessário. Delírio terminal: um fenômeno frequente, mas pouco compreendido O chamado delírio terminal afeta até 85% dos pacientes em cuidados de fim de vida, segundo estudos da Hospice and Palliative Nurses Association (EUA) e da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos (ABCP). É uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, de causa multifatorial, que inclui agitação, fala incoerente, perturbações do sono e episódios de alucinação. O paciente pode parecer “fora de si”, repetir frases sem sentido ou conversar com pessoas que já faleceram — um comportamento que, embora impressione, não deve ser visto como sofrimento, mas como reflexo de um cérebro em declínio metabólico. Alucinações no fim da vida: sinais espirituais ou respostas fisiológicas? Em muitos casos, pacientes relatam visões de parentes falecidos, luzes intensas ou a sensação de estar flutuando. Esses relatos, embora cercados de significados espirituais ou religiosos, também têm explicações neurológicas. Durante o processo de morte, o cérebro libera endorfinas e pode ter descargas elétricas irregulares, semelhantes às de uma convulsão leve — o que pode produzir imagens vívidas e sons sem fonte real. Estudo publicado no Journal of Near-Death Studies mostra que essas experiências são mais comuns em pacientes com câncer avançado, doenças neurodegenerativas ou falência múltipla dos órgãos. Como lidar com a confusão mental no fim da vida? A presença da família e uma abordagem humanizada são fundamentais. Mesmo em meio à confusão mental, o paciente pode reagir ao toque, à voz familiar e a ambientes calmos. Evitar barulhos excessivos, luzes fortes e movimentos bruscos ajuda a reduzir a agitação. Equipes de cuidados paliativos recomendam atenção redobrada à hidratação, ao controle da dor e à revisão constante das medicações, como formas de minimizar os sintomas neurológicos. O objetivo, nesses casos, não é curar, mas oferecer dignidade e conforto.