Um violão tenor usado nos cassinos do litoral, o sobretudo que acompanhou uma turnê internacional com Carmen Miranda e partituras manuscritas estão entre as peças que ajudam a contar a história de um dos grandes nomes da música instrumental brasileira. A exposição “Garoto, a Revolução das Cordas” está em cartaz gratuitamente no Instituto Arte no Dique, em Santos, no litoral de São Paulo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A mostra apresenta a trajetória de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, músico, compositor e multi-instrumentista que ajudou a transformar a linguagem do choro e do violão brasileiro. Além da importância nacional de sua obra, a exposição evidencia a relação do artista com Santos. Realizada em parceria entre o Instituto Arte no Dique, a Associação Comercial de Santos (ACS) e o Clube do Choro de Santos, a exposição conta com 14 painéis, fotografias cedidas pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ), partituras, objetos pessoais, materiais de divulgação e outros registros históricos. Para Zé Virgílio, presidente do Instituto Arte no Dique, receber o acervo também é uma forma de aproximar novas gerações da história da música brasileira. “É uma alegria para o Arte no Dique receber uma exposição que conta a história de um artista da importância de Garoto. Nosso trabalho sempre teve a cultura como instrumento de transformação e de acesso ao conhecimento. Trazer esse acervo para dentro do Instituto é uma oportunidade de apresentar às novas gerações a trajetória de um músico que revolucionou as cordas e deixou um legado enorme para a música brasileira. Além disso, Garoto tem uma ligação especial com Santos, o que torna essa exposição ainda mais significativa para nós”, afirma. De “Moleque do Banjo” a Garoto Nascido em 28 de junho de 1915, em São Paulo, Aníbal Augusto Sardinha cresceu em uma família ligada à música. Ainda menino, começou a chamar atenção pela habilidade com instrumentos de cordas e recebeu o apelido de “Moleque do Banjo”. Mais tarde, ficou conhecido simplesmente como Garoto, nome que o acompanhou durante toda a carreira. Violonista, compositor e multi-instrumentista, ele dominava instrumentos como violão, violão tenor, violão de sete cordas, cavaquinho, bandolim, banjo, guitarra elétrica, guitarra havaiana e guitarra portuguesa. A combinação de técnica, criatividade e abertura para diferentes influências fez com que sua produção se tornasse referência para gerações de músicos. Os painéis da exposição percorrem diferentes momentos dessa trajetória: da infância e do início precoce na música à atuação nas rádios, passando pela mudança para o Rio de Janeiro, pela experiência internacional ao lado de Carmen Miranda e do Bando da Lua e pelo contato com o jazz. A mostra também aborda a participação de Garoto no Trio Surdina e o sucesso de “São Paulo Quatrocentão”, composição feita em parceria com Chiquinho do Acordeon. Sobretudo usado em turnê com Carmen Miranda Uma das peças que chamam atenção na exposição é o sobretudo utilizado por Garoto durante a turnê pelos Estados Unidos e Canadá com Carmen Miranda e o Bando da Lua, entre 1939 e 1940. A viagem marcou um importante momento da projeção internacional do instrumentista e incluiu apresentações no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York. O sobretudo foi doado ao Clube do Choro de Santos em 2015, quando foi celebrado o centenário de nascimento do músico, por iniciativa de seu filho, Antônio Augusto de Castro Sardinha. Violão guarda ligação com Santos Outro destaque ajuda a revelar a relação de Garoto com a Baixada Santista. Trata-se de um violão tenor branco utilizado pelo músico em apresentações nos cassinos do litoral e nos estúdios da Rádio Atlântica de Santos, que operava sob o prefixo PRG-5. O instrumento pertence ao acervo de Jaime Mesquita Caldas e Jorge Maciel. A ligação com a cidade aparece também em uma partitura manuscrita do choro “Pequenininho”, composto por Garoto em 25 de dezembro de 1944. A obra foi dedicada a Nelsinho, Nelson Baptista Campos, conhecido como o “malabarista do violão tenor” e profissional da Rádio Atlântica de Santos. Na mesma data, Garoto compôs “Gentilíssimo”, dedicado a Gentil Castro, outro nome ligado à emissora santista. As duas composições posteriormente ganharam gravações inéditas no CD “Almanach de Choro”, produzido por Luiz Antônio Pires, diretor e um dos fundadores do Clube do Choro de Santos, em uma iniciativa de preservação e divulgação da obra do instrumentista. Homenagem no centenário A exposição apresenta ainda um selo personalizado e um carimbo comemorativo emitidos pelos Correios em 26 de junho de 2015. Os itens fizeram parte de um evento realizado pelo Clube do Choro de Santos para marcar o centenário de nascimento de Garoto. O selo foi criado pela designer Márcia Okida. Também estão expostos a Revista Cultural do Clube do Choro e um folder relacionado ao Dia Estadual do Choro, celebrado em 28 de junho, justamente a data de nascimento do músico. Garoto morreu em 1955, aos 39 anos, mas sua produção atravessou décadas e permanece como referência para instrumentistas e compositores. Sua obra é reconhecida especialmente pela capacidade de estabelecer uma ponte entre a tradição do choro e as transformações harmônicas que marcariam a música brasileira nas décadas seguintes.