Uma simples notificação pode segurar você por horas no celular (Tânia Rêgo/Agência Brasil) Basta olhar o horário na tela do celular e uma notificação que chama atenção te prende por horas. Uma ‘olhadinha’ antes de dormir e outra assim que acorda. Acompanhar todos detalhes da vida de seu influenciador favorito ou daquela vizinha que posta tudo que acontece com ela. Aos poucos, o hábito virou um vício e seus impactos são severos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Normalizado e silencioso, o vício em celular cresce e se apossa de uma pessoa de forma quase invisível. Quando constante, os primeiros sintomas aparecem: ansiedade e uma vida menos social. Estudos indicam que o uso excessivo de telas pode aumentar sintomas de ansiedade, depressão e estresse, especialmente quando associado ao uso intenso de redes sociais. Para a pediatra com ênfase nos transtornos do neurodesenvolvimento e professora da UniSul/Inspirali, Marlana Aparecida Kusama, há sinais a serem percebidos: a necessidade de verificar o celular constantemente; ansiedade e irritabilidade extrema quando não pode utilizar os equipamentos e diminuir socialização (entre familiares e amigos) para usar as telas. Outros pontos são a checagem de redes sociais ou notificações de mensagens compulsivamente; uso prolongado das telas a ponto de prejudicar atividades de vida diária e o desânimo quando está longe das telas. “O uso excessivo não prejudica as atividades diárias e socialização, o indivíduo continua executando todas as funções sem serem prejudicadas”, explica a profissional sobre o estágio que se torna um vício. Dentre os impactos negativos, a especialista destaca que o vício pode trazer problemas de visão (como a fadiga ocular, vista embaçada, cefaleia e espasmo acomodativo) e transtornos posturais (cervicalgia, lesão por movimentos repetitivos, dores nos ombros e cotovelos). Fora o prejuízo no sono, causado principalmente pela luz azul emitida pelas telas, que Kusama informa que pode prejudicar a produção de melatonina, dificultando o relaxamento e o ciclo do sono ideal. Outros possíveis efeitos a longo prazo, segundo a médica, são: o sedentarismo (acarretando em obesidade), doenças cardíacas, diabetes, perda de habilidades motoras e força muscular. Sentimento sob a tela Para a neuropsicóloga Solange Rinaldi, o maior dano para as relações interpessoais é a falta de troca. “Quando as pessoas estão se comunicando pela tela, é tudo muito superficial. A pessoa fala que está bem e você acredita. Quando você tem a troca presencial, você consegue ver além do que a pessoa está te trazendo”. Esse excesso de telas pode a prejudicar a empatia, a escuta ativa e a interpretação de linguagem corporal, dificultando novas conexões com ênfase em sentimentos sólidos e reais. Rinaldi enfatiza que a qualidade de percepções e trocas são prejudicadas pelas interações por telas, trazendo um impacto na qualidade de vida e na parte social de cada indivíduo. A especialista também cita que um dos maiores prejuízos do vício é a baixa interação com as pessoas que estão regularmente em sua rotina, como a família. Um hábito negativo, por exemplo, é o uso de celular enquanto janta com os parentes e não há troca de interações sob a mesa. Impacto em crianças e adolescentes Kusama explica que o uso excessivo de telas, segundo a JAMA Pediatrics (revista americana especializada em pediatria), está ligado a atrasos no desenvolvimento da linguagem, dificuldade de atenção e concentração nas crianças, posteriormente acarretando em Transtornos de Ansiedade, sobrecarga cerebral, chegando a Depressão “Quando uma criança é exposta à telas no início da fase de Neurodesenvolvimento, ou seja, nos primeiros 5 anos de vida, pode ser prejudicial à formação de comunicação, fase onde as crianças criam vínculo fraternal, conexões, retenção de informações durante a formação do córtex pré-frontal, atraso de resolução de problemas e a tendência posteriormente é o agravamento dos sinais”, relata. Em adolescentes, o uso excessivo também pode trazer distúrbios alimentares, como anorexia ou bulimia. Kusama enfatiza que há busca deste tipo de conteúdo na internet, induzindo a prática. “Temos que ter consciência de que as crianças precisam interagir, brincar, falar, criar conexões e que através das telas o processo pode se romper. Caso perceba que a criança chora muito, tem resistência, ao desligar o equipamento, procurar algum profissional da saúde que esteja capacitado para acolher e atendê-la”, aconselha. Para promover um uso mais consciente e saudável da tecnologia desde a infância, a pediatra recomenda que os responsáveis limitem o horário, tipo de acesso, sabendo qual tipo de conteúdo seu filho tem o hábito de usar, seja televisão, computador, celular, videogame. Como sair do vício A psicóloga Alessandra Demite descreve que, para mitigar estes impactos negativos, são necessários cuidados que envolvem mudanças comportamentais e ergonômicas, tais como: uso de filtros de luz azul e redução do uso de telas pelo menos por 1 hora antes de dormir; praticar exercícios físicos para questões relacionadas à postura e exercícios para os olhos, além de pausas regulares. Demite também indica que as pessoas se policiem para manter uma postura correta ao usar dispositivos e definir horários específicos para o uso de telas (principalmente no caso de crianças). Estratégias como uso de aplicativos de controle de tempo de tela ou mesmo o velho relógio tendem a ajudar no controle do tempo conectado. “Ou seja, estabelecer horários e limites diários é uma técnica que funciona bem. Priorizar atividades offline, como a prática de esportes ao ar livre, leituras e eventos sociais presenciais auxiliam na criação de novos hábitos longe das telas”. “Essas técnicas funcionam melhor quando a pessoa está disposta a criar novos hábitos mais saudáveis, pois, sem a conscientização da necessidade de mudança, toda técnica pode parecer frágil. Esse equilíbrio pode ser conquistado com a criação de rotinas que incluam atividades físicas e momentos ao ar livre, reserva de tempo para interações sociais presenciais e o uso da tecnologia de forma intencional e produtiva. O apoio da família, amigos e profissional especializado – psicólogo – auxilia bastante neste processo”, enfatiza.