Jogos on-line, sobretudo os cassinos virtuais, podem provocar dependência química e danos patrimoniais. Questão também tem sido tratada como caso de polícia (Unsplash) Até onde um jogo virtual pode levar? Eles podem parecer inofensivos. Afinal, num exemplo, é só um joguinho protagonizado por um tigre ou qualquer outro animal simpático. Contudo, especialistas orientam que a frequência nesses cassinos virtuais pode levar à dependência e causar prejuízos materiais e para a saúde mental. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Levantamento recente da Secretaria Estadual de Segurança Pública mostra que houve mais de 500 registros de boletins de ocorrência relacionados ao chamado Jogo do Tigrinho, entre 2023 e este ano. Segundo investigações, ele estaria sendo usado por organizações criminosas. O psicólogo especializado em Dependência Química Antonio Chaves Filho, do Hospital Santa Mônica, de São Paulo, relata o vício pode se manifestar de maneira sutil. “Inicialmente, talvez a pessoa passe mais tempo no celular, em uma roda de conversa, jogando. Depois, ela se afasta do convívio social e familiar, não aparece em reuniões sociais e, em um grau mais severo, pode parar de trabalhar para jogar.” A dependência no jogo pode, ainda, levar à falta de autocuidado, isolamento e outros vícios, em geral buscados para sanar a dor existencial causada pelo jogo, conforme o especialista. Chaves explica que também pode haver impacto na vida financeira. Indicadores desse problema podem ser pedidos de adiantamento ou vale, dificuldade de pagar as contas e endividamento — não importam idade e classe social. A dependência em jogos pode ser ativada devido a algum fator de estresse na vida. “Ela (a pessoa dependente) vê o jogo como uma possibilidade de melhora, com algum tipo de ganho, e isso acaba atuando no sistema de recompensa cerebral, agindo no cérebro da mesma maneira que uma substância psicoativa.” O estímulo luminoso, as cores e a possibilidade de ganho fazem com que a pessoa desenvolva pensamento repetitivo. Quando a aposta é feita, o nível de dopamina aumenta, causando sensação de prazer. Mesmo que haja ganho, o neurotransmissor cai, e o cérebro precisa de mais para se sentir feliz e estimulado. Por isso, o aumento contínuo do uso de jogos. “Geralmente, a pessoa que tem essa predisposição a criar uma dependência já tem um vazio na vida. Então, ela busca, de alguma maneira, preencher isso”, diz o psicólogo. Como ajudar Diálogo e acolhimento são as duas principais ações destacadas por Chaves para ajudar um viciado em jogos virtuais. Porém, quem auxiliar não deve emitir opiniões sobre a questão. Para o especialista, o primeiro passo é ajudar o dependente a deixar a negação do problema, fazendo com que ele enxergue as consequências negativas que o jogo está proporcionando. Polícia relaciona Jogo do Tigrinho a organizações criminosas O chamado Jogo do Tigrinho, entendido como um cassino on-line, virou alvo de investigações da Polícia Civil paulista devido à atuação de organizações criminosas que usam a plataforma para aplicar golpes ao prometer dinheiro fácil. O Fortune Tiger — nome original do jogo em inglês e que, em tradução livre, seria tigre da sorte ou da fortuna — simula um caça-níquel para o jogador apostar e aguardar três figuras iguais, que resultam em um suposto prêmio em dinheiro. Isso é considerado jogo de azar. As plataformas estão localizadas fora do País e são clandestinas. Segundo o Departamento de Investigações Criminais da Polícia Civil (Deic), golpistas criam perfis falsos nas redes sociais para convidar novos jogadores e pagam influenciadores digitais para simular uma vida de luxo obtida por meio da plataforma. De acordo com o Deic, quantias de R\$ 10 mil, R\$ 20 mil e R\$ 30 mil supostamente obtidas pelos influenciadores nas redes sociais não são uma realidade, mas uma simulação. Postagens falsas fazem usuários apostarem cada vez mais. Ao ganhar algum prêmio grande, a conta é bloqueada, e o valor não é pago. A polícia investiga quem faz a intermediação do pagamento entre os donos da plataforma e jogadores. O alto volume de denúncias tem levado à apreensão de imóveis e veículos, a operações contra golpistas e indiciamentos. Os envolvidos responderão por estelionato, crime contra a economia, associação criminosa e lavagem de dinheiro.