Novo imunizante desenvolvido pelo Butantan nasce a partir de um minucioso processo de composição, em várias etapas (AdobeStock) Desenvolvida ao longo de 15 anos e aprovada recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a nova vacina contra a dengue, produzida pelo Instituto Butantan, a Butantan-DV, detém um rigoroso processo de fabricação. “Entre cultivo de células, produção do insumo farmacêutico ativo, formulação do imunizante, envase, recrave e liofilização, o ciclo produtivo leva cerca de dois meses e envolve mais de 200 profissionais”, afirma o diretor técnico da Produção da Vacina da Dengue, Antonio Cesar Pereira da Silva. “A lógica dessa vacina é simples: para se replicar, os vírus do imunizante precisam de uma célula. Por isso, a origem de tudo está nos chamados bancos mestre, semente e trabalho”, explica a gerente de Produção da Butantan-DV, Daniella Ventini. Como o produto é composto por quatro tipos diferentes de vírus, também conhecidos como cepas ou sorotipos, para amplificação do material são utilizadas células Vero, uma linhagem proveniente do rim do macaco verde africano. A célula Vero original, que serve como base para a fabricação do imunizante, veio da American Type Culture Collection (ATCC), uma organização internacional que atua como uma biblioteca de recursos biológicos. A partir dessa célula mãe, uma primeira amplificação do material foi feita para criar o banco mestre, algo como um estoque próprio de células Vero do Butantan. Essas mesmas células passaram por uma outra etapa de amplificação, dando origem ao banco trabalho: um volume de células que será capaz de abastecer a produção de IFA da dengue por aproximadamente dois anos. Já as cepas dos quatro vírus da doença que compõem o imunizante foram desenvolvidas e doadas ao Butantan pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Assim como as células Vero, esse material foi amplificado para gerar o banco semente. Depois, ampliado novamente para dar origem ao banco trabalho, capaz de alimentar a produção da Butantan-DV por cerca de cinco anos. Na China A fim de escalonar ainda mais a capacidade produtiva da vacina da dengue e atender a uma demanda cada vez mais crescente — segundo a Organização das Nações Unidas, a doença ameaça 4 bilhões de pessoas no mundo —, o Instituto Butantan estabeleceu uma parceria estratégica com a WuXi Vaccines, empresa global de Pesquisa, Desenvolvimento e Fabricação por Contrato (CDMO), para a fabricação de outras dezenas de milhões de doses do produto. “Trata-se de uma parceria robusta e estratégica, que aumenta nossa capacidade de entrega, acelera o acesso da população a um produto essencial e reafirma o papel do Instituto como protagonista global na produção de imunizantes”, pontua Daniella Ventini, uma das responsáveis técnicas pelo acordo. O processo Amplificação das células: um criotubo de células Vero é retirado do banco trabalho para dar início à fase de amplificação do material, que dura cerca de 20 dias. As células são multiplicadas em meio de cultura, líquido de coloração avermelhada, rico em nutrientes, que oferece condições ideais para o crescimento das partículas, até que se atinja uma quantidade suficiente para a produção dos lotes de IFA, ingrediente farmacêutico ativo. Inoculação: a cultura de células Vero recebe uma quantidade exata de uma das quatro cepas da dengue, provenientes do banco de vírus trabalho. Esse volume varia de acordo com a capacidade de infecção de cada cepa. Incubação: os frascos infectados com o vírus são colocados em incubadoras a uma temperatura controlada. Os vírus infectam as células Vero, criando cópias de si mesmo e liberando milhares de novas partículas virais no meio de cultura. Colheita: após um período estabelecido, o líquido sobrenadante, rico em vírus, é coletado para dar continuidade ao processo de produção do monovalente. Purificação: como o líquido coletado na etapa anterior não contém apenas vírus, mas também restos de células e componentes do meio de cultura, um processo de purificação é realizado para isolar e concentrar o IFA. Formulação: com os quatro IFAs preparados, um para cada sorotipo do vírus, é hora de criar a receita final do imunizante. Nesta etapa, é necessário calcular o volume de cada IFA a ser utilizado, baseado na quantidade de partículas virais presente em cada um. Envase e liofilização: em uma linha automatizada e totalmente estéril, a versão líquida da vacina é depositada em frascos com volume correspondente a uma dose do produto.