(Arquivo Pessoal) Todo mundo conhece alguém que já disse: “um dia quero fazer trabalho voluntário”. Para alguns jovens, esse dia chegou depois de um convite de um amigo, de uma lembrança da infância ou simplesmente da vontade de fazer algo diferente. O que eles não imaginavam era que aquele primeiro “sim” mudaria muito mais do que algumas horas da rotina. Entre marmitas distribuídas em noites frias, visitas a aldeias indígenas e abraços de crianças, três histórias mostram que o voluntariado não é apenas sobre ajudar alguém. É também sobre aprender, criar conexões e descobrir novas formas de enxergar o mundo em que vivemos. Além da marmita O massoterapeuta João Victor Marcondes Pereira, de 23 anos, morador de Praia Grande, já tinha o hábito de ajudar pessoas em situação de rua comprando refeições. Mas foi ao aceitar o convite de uma amiga para conhecer o Panelinha do Bem que percebeu que a solidariedade podia ir muito além da comida. A experiência que mais o impactou aconteceu durante uma noite de inverno, quando encontrou uma senhora de aproximadamente 70 anos recolhendo latinhas para sobreviver. Enquanto entregava uma refeição, ouviu a história daquela mulher e saiu dali com uma nova perspectiva. “O jeito que ela era grata à vida, mesmo vivendo naquela situação, me fez refletir”. Desde então, João conta que aprendeu a valorizar mais a própria vida. “Passei a reclamar menos, a ser muito mais grato pelo que tenho”. Quem doa também recebe Aos 14 anos, a coordenadora de território Monyke Silvano Araújo, de 23 anos, de São Vicente, teve a primeira experiência como voluntária em um asilo. Anos depois, encontrou na Caiçara ONG um propósito ainda maior, levando ações de dignidade menstrual para escolas, comunidades, aldeias indígenas e pessoas em situação de vulnerabilidade. Foi justamente em uma dessas visitas, na Aldeia Tapirema, em Peruíbe, que viveu uma das situações mais marcantes. “Fui para doar, mas voltei tendo recebido muito mais em aprendizado e afeto”. Ao ouvir os desafios enfrentados por crianças indígenas para estudar fora da aldeia, percebeu que precisava olhar para as pessoas antes de olhar para suas dificuldades. “Aprendi que ninguém pode ser resumido pela própria vulnerabilidade”. Segundo ela, o voluntariado mudou até a maneira de lidar com os próprios problemas. “Hoje dou menos importância às pequenas coisas e acredito que grandes transformações começam com pessoas comuns que decidem agir”. Pequenos mundos A advogada Gabriela Maria Luís Sant'Ana, de 27 anos, moradora de Santos, cresceu participando de ações sociais na igreja com os pais. Mesmo assim, demorou para aceitar o convite de amigas para conhecer a Hamburgada do Bem. “Eu sempre fui muito fechada porque não sabia como funcionava. Um dia resolvi me permitir”. Foi esse “sim” que a colocou diante de uma situação que resume o espírito do projeto. Durante uma edição, passou cerca de meia hora tentando acalmar uma menina com paralisia cerebral para conseguir trocar sua fralda. Quando saiu do banheiro, encontrou uma longa fila de mulheres esperando. Nenhuma reclamou. “Elas perceberam o que estava acontecendo e deixaram aquele momento acontecer no tempo da criança”. Hoje, Gabriela diz que essa experiência a ensinou a desacelerar. “Aprendi a não viver no automático, a olhar mais para o próximo e agir com mais empatia”. O primeiro passo Apesar de seguirem caminhos diferentes, os três concordam em uma coisa: ninguém precisa esperar estar totalmente preparado para começar. João acredita que a mudança acontece quando as boas intenções se transformam em ação. Para Monyke, o medo de não saber como ajudar costuma ser o maior obstáculo. Já Gabriela resume a experiência em um convite simples: “você precisa se permitir viver isso. A gente acha que está indo para doar, mas acaba recebendo em dobro. Talvez eu não possa mudar o mundo sozinha, mas juntos podemos mudar pequenos mundos”.