(Imagem ilustrativa gerada por IA) “Ler é sonhar pela mão de outrem”. A frase de Fernando Pessoa, na obra Livro do Desassossego, traduz uma das experiências que atravessam gerações: a possibilidade de conhecer novos mundos sem sair do lugar. Mesmo em uma época marcada por vídeos curtos, redes sociais e telas, há quem ainda prefira o som das páginas virando e um livro nas mãos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para a estudante Mariana Carmo, de 16 anos, moradora da Ponta da Praia, em Santos, a paixão pela leitura voltou durante a pandemia, depois de uma influência atual: o TikTok. Incentivada pela prima, ela começou a conhecer livros indicados na plataforma digital e encontrou uma nova forma de se relacionar com as histórias. O primeiro livro dessa fase foi Os Sete Maridos de Evelyn Hugo. Páginas e sensação Mesmo tendo contato com o digital, ela prefere o livro físico por causa da experiência proporcionada pelo papel. “O sensorial. Sentir o cheiro, conseguir medir nos dedos o tamanho de um capítulo”, explica. Para Mariana, o livro também permite uma leitura mais confortável, sem deixar os olhos cansados tão rapidamente. Ela costuma ler antes de dormir e aproveita momentos livres na escola, como quando chega atrasada e precisa esperar a segunda aula ou quando os amigos não vão. O celular, porém, continua sendo um concorrente. “Às vezes acabo me distraindo com o celular e nem leio”, admite. Refúgio longe das telas Para a fisioterapeuta Gabriella da Silva Ribeiro, de 27 anos, moradora do Gonzaga, em Santos, a relação com os livros também passou por mudanças ao longo da vida. A leitura esteve presente desde a infância, mas acabou ficando de lado durante a faculdade. Foi justamente nesse período que ela percebeu a importância que o hábito tinha em sua rotina. “Fazia falta. Isso fez com que eu priorizasse reestabelecer o hábito o quanto antes”, afirma. Hoje, Gabriella encontra espaço para ler nos deslocamentos de transporte público, antes de dormir e, aos finais de semana, tenta reservar pelo menos meia hora para o hábito. A preferência pelo livro físico, para ela, está diretamente ligada à possibilidade de fazer uma pausa no mundo digital. “Só o livro físico permite que você realmente se desligue um pouco das telas”. Histórias que ficam Mais do que passar o tempo, alguns livros acabam encontrando o leitor no momento certo e ganhando um significado especial. Para Gabriella, essa identificação pode transformar a leitura em “um amigo, um abraço, uma validação, uma lupa, um guia”. É o que aconteceu com Batida Só, de Giovana Madalosso, obra com a qual se identificou por retratar sentimentos ligados à coragem de partir e recomeçar. Mariana também viveu essa experiência com A Vida Invisível de Addie LaRue. Depois de abandonar o livro em 2022, voltou à história neste ano e se surpreendeu ao perceber que, naquele momento, os temas faziam mais sentido para sua vida. “Tem aquela coisa que dizem que o livro te encontra na hora certa”, brinca. Outra obra marcante para ela foi A Redoma de Vidro, lido durante uma fase complicada. Um trecho da obra acabou representando sua superação: “Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou”. Incentivo Se, por um lado, as redes sociais podem disputar a atenção dos leitores, por outro elas também são uma porta de entrada ao universo literário. A própria história da estudante Mariana Carmo mostra isso, graças ao TikTok. A fisioterapeuta Gabriella Ribeiro (foto) também percebeu essa mudança ao acompanhar a última Bienal do Livro de São Paulo. Ela se surpreendeu com a quantidade de jovens que chegaram ao evento influenciados pelos chamados “booktoks”, conteúdos de indicação e discussão de livros no TikTok. “Isso fez uma chave virar na minha cabeça e perceber que as redes sociais não precisam ser apenas vilãs”. Para ela, as plataformas ajudam leitores a encontrar pessoas com gostos parecidos, formar grupos e descobrir novas histórias. “É fantástica a capacidade da literatura de nos mostrar que a nossa dor não é única, apesar de assim aparecer”. (Arquivo pessoal)