Testes para observar habilidades que existem e que serão desenvolvidas pelo jovem seguem em pauta (FreePik) Apesar das mudanças no mercado de trabalho ao longo do tempo, algo não se alterou entre os jovens: as dúvidas sobre qual carreira seguir. Um teste vocacional costuma ser um caminho. Ou seria um teste psicológico? Ou as duas coisas? O psicólogo e especialista em recrutamento, seleção e avaliação psicológica Cristiano Nascimento faz essa distinção. “Testes vocacionais são inventários e testes construídos sem embasamento técnico-científico que visam atestar se um conjunto de respostas sobre determinado tema indica que um sujeito tem ou não habilidades vocacionais para desempenhar de maneira adequada em determinada área profissional. É importante destacar que os testes vocacionais não são sinônimos para testes psicológicos – que são instrumentos de avaliação utilizados estritamente por psicólogos e validados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP)”, explica. Nos processos de orientação profissional, observa o especialista, os testes psicológicos são instrumentos extras utilizados por um profissional para auxiliá-lo na construção, junto ao seu cliente, de uma melhor percepção quanto às habilidades já desenvolvidas e as que serão, visando gerar autoconhecimento e clareza sobre a pessoa. “Para a Psicologia, o termo vocação remete a algo imutável, portanto, não é um termo apurado, visto que o mundo do trabalho é volátil, incerto, complexo e ambíguo. Compreendendo que a relação sujeito-trabalho exige flexibilidade, não podemos assumir que um sujeito tem habilidades predestinadas, pois isso também seria assumir uma limitação natural do indivíduo, não permitindo mudanças ou outras escolhas e interesses”, argumenta. Especialistas e conjunto O especialista lembra que todo teste ou inventário de avaliação psicológica é um instrumento restrito a profissionais com graduação em Psicologia e inscritos em seus conselhos regionais. “Aos indivíduos que buscam iniciar o processo de orientação, cabe buscar por consultorias que trabalham com sessões de Orientação Profissional, bem como profissionais liberais que têm seus próprios clientes e consultórios”. Cristiano também observa que o processo de orientação profissional não se resume à aplicação de testes, bem como um teste psicológico não deve ser o único fator a ser considerado como base na escolha de uma carreira ou área de estudos. “Os jovens e adultos podem, sim, continuar se aproveitando desta ferramenta para nortear suas escolhas de carreira, e a Psicologia deve manter seu compromisso de se atualizar ao longo dos anos para acompanhar as evoluções do mercado de trabalho e sua relação com os envolvidos. Quando um indivíduo tem clareza quanto às habilidades, aos valores e aos interesses, sua chance de se inserir em um contexto profissional saudável e estimulante é aumentada”, alerta. A estudante santista Giovanna Barroso Martins, de 19 anos, procurou o teste vocacional porque, apesar de ter algumas ideias a respeito de áreas que gostaria de seguir, não tinha certeza de qual se encaixava melhor. “Estava com medo de começar a estudar e não ser nada do que eu esperava ou não me sair bem como profissional, de não me identificar com a área. Fazer esse teste foi de suma importância pra mim porque, além de me dar um direcionamento, também me deu a oportunidade de descobrir mais sobre mim mesma e nas coisas que sou realmente boa. E que gosto de fazer”, relembra a moradora do Macuco. O resultado apontou Design Gráfico, curso que faz na Esamc Santos. Giovanna realizou o teste vocacional pela internet, poucos meses antes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em um site de uma plataforma educacional ligada a bolsas de estudo. “O teste era composto por várias perguntas voltadas para a minha personalidade, gostos pessoais e como me relaciono com as pessoas ao meu redor. Elas tinham uma escala de 1 a 5, sendo 1 a que eu menos me identificava e 5 a que mais”, explica. Os resultados da avaliação, lembra a estudante, foram baseados na teoria das inteligências múltiplas: naturalista, linguística, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, musical, interpessoal e intrapessoal. “Todas as inteligências têm uma porcentagem diferente de acordo com os resultados do teste e, no meu caso, a com a porcentagem mais alta foi a inteligência espacial”, afirma. Feliz e surpresa Giovanna percebe que o resultado se encaixou perfeitamente com a área que está cursando, pois a inteligência espacial envolve a estética e representa uma mentalidade mais criativa e a capacidade de interpretar as situações e objetos ao nosso redor. “E o Design Gráfico é uma área diretamente voltada para a criação e comunicação”, completa. Apesar disso, a estudante confessa que ficou surpresa. “Sempre gostei muito de criar e imaginar, mas não pensei que seria algo tão marcante a ponto de eu desenvolver isso em um ambiente profissional. Sinto que essa foi a minha melhor escolha”, comenta. Orientação vocacional é ‘processo terapêutico’, explica psicóloga A orientação vocacional realizada pela psicóloga clínica santista Teresa Cristina Racioppi Schiff, com 43 anos de carreira, é calcada na experiência da profissional e em pouquíssimos testes. “É um processo terapêutico, só que com foco em mercado de trabalho, em carreira, em futuro. Preciso conhecer esse jovem. Então, vou trabalhar questões de personalidade, de interesse dele e as aptidões”, afirma. O chamado pulo do gato está em como compreender essas aptidões e suas funções. “O que a gente precisa entender quando vai fazer orientação vocacional é o que é carreira e o que é hobby. Às vezes, você pode ter ali uma aptidão muito grande para uma coisa, mas aquilo na sua vida funciona como um hobby e não como carreira. Então, todas essas crenças de que, por exemplo, a pessoa desenha e vai para a Arquitetura, não necessariamente ocorre. Já vi gente que se matriculou em Arquitetura porque desenhava bem, mas fez o curso e, quando acabou, viu que gostava também de escrever, de ler, de falar. Depois, foi fazer Direito e fez a correção de rumo em cima disso”. Pais e longo prazo Na primeira entrevista, a psicóloga recebe os pais do jovem para notar a dinâmica familiar e a expectativa deles. “Pai e mãe convivem com o filho e o conhecem muito mais que qualquer profissional. E já vejo ali como os pais estão lidando com isso, se estão ansiosos ou não. Isso tudo é importante para o trabalho e, ao final, dou uma resposta, chamando os pais de volta. Levo mais ou menos umas dez consultas para fazer esse trabalho. Ele é gradativo. Claro que, às vezes, durante o trabalho detectamos problemas emocionais desse jovem que impedem que, naquele momento, decida por algo. Então, isso também é muito importante para conversar com os pais”. Teresa também procura mostrar aos jovens que atende – e que prefere que estejam no terceiro ano do Ensino Médio, último antes da faculdade – que a carreira profissional tem de ser observada a longo prazo. “Se você parar para pensar, você passa trabalhando os melhores anos da vida e nas melhores horas do dia. Então, é a importância desse trabalho fazer sentido, embora eu ache que, hoje, as carreiras são pensadas de forma muito diferente do que há muitos anos, em que as pessoas faziam um curso e pensavam em se aposentar, subindo degraus até lá. Hoje não se usa mais esse pensamento. Você escolhe uma carreira e caminha nela em diferentes direções, sempre querendo ir para o ponto mais alto dela”, argumenta.