Em geral, a cúrcuma é segura, mas seu consumo exagerado pode causar desconfortos gastrointestinais (Divulgação / FreePik) A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de farmacovigilância sobre o risco raro de inflamação e danos ao fígado associados ao uso de medicamentos e suplementos alimentares que contêm cúrcuma, planta também conhecida como açafrão-da-terra. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A decisão foi tomada após avaliações internacionais identificarem casos suspeitos de intoxicação hepática em pessoas que utilizaram produtos com cúrcuma ou curcuminoides, principalmente em cápsulas ou extratos concentrados. Segundo a agência, o problema está relacionado sobretudo a formulações desenvolvidas para aumentar a absorção da curcumina — principal composto ativo da cúrcuma, fazendo com que o organismo receba doses muito maiores do que aquelas obtidas normalmente na alimentação. Autoridades regulatórias de países como Itália, Austrália, Canadá e França já haviam emitido alertas semelhantes após registrarem casos de problemas hepáticos associados ao consumo desses suplementos. Na França, por exemplo, a Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho identificou dezenas de relatos de efeitos adversos ligados ao consumo de suplementos contendo cúrcuma ou curcumina, incluindo episódios de hepatite. Doses elevadas e uso sem orientação De acordo com o cirurgião do aparelho digestivo Pedro Bertevello, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, os casos de lesão hepática costumam ocorrer principalmente quando os produtos são utilizados em doses elevadas ou sem orientação médica. Segundo o especialista, muitas pessoas acreditam que suplementos naturais são totalmente seguros e acabam aumentando a quantidade por conta própria. “Existem doses consideradas seguras para o uso dessas substâncias. O problema é que muitas pessoas tentam potencializar os efeitos e acabam consumindo quantidades muito maiores do que o necessário”, afirma. Ele explica que a falta de padronização na concentração dos produtos também pode contribuir para o risco. “Nem sempre há uma regulação clara da concentração dessas substâncias. Muitas pessoas compram suplementos sem conhecer bem a procedência ou a dose real do produto”, diz. Como os suplementos podem afetar o fígado A cúrcuma é uma planta usada há séculos como tempero e também em preparações medicinais. O principal composto ativo é a curcumina, substância conhecida por propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. No entanto, nos suplementos alimentares a curcumina costuma aparecer em doses muito maiores do que aquelas consumidas na alimentação. Além disso, muitas formulações incluem substâncias que aumentam a absorção da curcumina pelo organismo, como a piperina, presente na pimenta-preta. Esse aumento de absorção faz com que uma quantidade maior da substância seja metabolizada pelo fígado, órgão responsável por processar e eliminar diversas substâncias presentes no sangue. Em algumas pessoas, esse processo pode desencadear uma reação inflamatória nas células hepáticas, levando a um quadro conhecido como hepatite medicamentosa, um tipo de lesão hepática provocada por substâncias químicas ou medicamentos. Segundo Bertevello, o risco costuma estar associado ao uso de doses elevadas ou à combinação com outros medicamentos. “Quando investigamos melhor esses casos, muitas vezes encontramos pessoas que usam várias substâncias ao mesmo tempo ou que aumentam a dose por conta própria, acreditando que por ser natural não haverá efeitos no organismo”, explica. Uso na culinária é considerado seguro A Anvisa reforça que o alerta não se aplica ao uso da cúrcuma na alimentação. O pó utilizado na culinária, comum em temperos e pratos como curries, é considerado seguro, já que as quantidades consumidas na dieta são muito menores do que aquelas presentes em suplementos concentrados. Sintomas que podem indicar problema no fígado A agência orienta que pessoas que utilizam suplementos com cúrcuma procurem avaliação médica caso apresentem sinais compatíveis com possível lesão hepática, como: pele ou olhos amarelados (icterícia); urina escura; cansaço intenso sem causa aparente; náuseas ou dor abdominal. A recomendação é interromper imediatamente o uso do produto e procurar atendimento de saúde caso esses sintomas apareçam. Eventos adversos podem ser comunicados aos sistemas de monitoramento da Anvisa, como o VigiMed, voltado para medicamentos, e o e‑Notivisa, utilizado para registrar problemas relacionados a suplementos e outros produtos. Medidas adotadas pela Anvisa Como medida preventiva, a Anvisa determinou a atualização das bulas de medicamentos que contêm cúrcuma, incluindo avisos de segurança. Entre eles estão os produtos Motore e Cumiah. No caso dos suplementos alimentares, a agência informou que abrirá um processo de reavaliação do uso dessas substâncias e exigirá a inclusão de advertências obrigatórias sobre possíveis efeitos adversos nos rótulos.