Promessas de pele mais bonita, rejuvenescimento, mais disposição, melhora da imunidade e até “detox” ajudaram a transformar a soroterapia em um procedimento cada vez mais divulgado nas redes sociais. Também chamada popularmente de “soro da beleza”, a técnica envolve a administração de vitaminas e outras substâncias diretamente na veia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas será que funciona? A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) faz um alerta: não existem evidências científicas que comprovem esses benefícios da soroterapia em pessoas saudáveis. A preocupação levou a Agência a publicar, neste mês, um comunicado específico sobre o assunto. Segundo a Anvisa, a administração intravenosa de nutrientes, medicamentos e outras substâncias tem aplicações reconhecidas na medicina, mas deve ser utilizada quando existe indicação clínica. É o caso, por exemplo, de pacientes desidratados, internados, com deficiência de determinado nutriente diagnosticada ou que, por alguma condição de saúde, não conseguem receber adequadamente nutrientes pela alimentação. O problema aparece quando a mesma via é utilizada em pessoas saudáveis com promessas de benefícios estéticos ou de bem-estar sem respaldo científico. Afinal, o que é o ‘soro da beleza’? O nome pode dar a impressão de que existe um produto específico chamado “soro da beleza”, mas não é bem assim. Soroterapia é um termo usado para a administração intravenosa de substâncias que podem incluir vitaminas, minerais, aminoácidos e outros componentes. As combinações variam de acordo com o protocolo oferecido. Nas redes sociais e em clínicas, essas aplicações podem aparecer associadas a promessas que vão desde melhorar a aparência da pele até combater cansaço e fortalecer a imunidade. A Anvisa, porém, é categórica ao afirmar que não há comprovação científica de que a soroterapia seja segura e eficaz para melhorar a saúde, prevenir doenças ou aumentar o bem-estar de pessoas saudáveis. A Agência também ressalta que não existe “cosmético injetável”. Cosméticos, por definição, são produtos destinados ao uso externo. Uma substância aplicada por injeção deve estar regularizada para essa finalidade como medicamento ou produto para saúde. Se são vitaminas, por que podem fazer mal? Um dos equívocos relacionados ao assunto é imaginar que vitaminas são sempre inofensivas. O organismo necessita delas, mas isso não significa que doses elevadas tragam benefícios adicionais. O excesso pode provocar a chamada hipervitaminose. Dependendo da substância e da quantidade administrada, podem ocorrer náuseas, vômitos, dores de cabeça e alterações no funcionamento do fígado e dos rins. A própria aplicação intravenosa também apresenta riscos. Como a substância entra diretamente na circulação sanguínea, podem ocorrer infecções, reações alérgicas e outras complicações. Por isso, não é porque uma substância é uma vitamina que sua administração pela veia pode ser considerada automaticamente segura. ‘Detox’, imunidade e rejuvenescimento É justamente nas promessas associadas à soroterapia que o consumidor precisa redobrar a atenção. “Detox”, fortalecimento da imunidade, aumento da disposição e rejuvenescimento são alguns dos benefícios frequentemente divulgados. A Anvisa afirma que promessas encontradas na internet não substituem evidências científicas. O órgão também orienta consumidores a desconfiar de propagandas que atribuam a produtos benefícios considerados milagrosos, principalmente quando envolvem emagrecimento, aumento da imunidade, melhora do desempenho físico ou sexual e tratamento de diferentes condições de saúde. Soroterapia é proibida? A administração de substâncias pela veia não é, por si só, algo sem aplicação médica. Pelo contrário: a terapia intravenosa faz parte da medicina e pode ser essencial em diversas situações. A diferença está na indicação. A reposição de uma vitamina ou nutriente pode ser necessária quando exames e avaliação clínica demonstram uma deficiência e o profissional responsável considera a via intravenosa adequada. Isso é diferente de aplicar combinações de substâncias em uma pessoa saudável apenas com a promessa genérica de proporcionar mais energia, beleza, imunidade ou rejuvenescimento. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também já estabeleceu limites para práticas envolvendo vitaminas, sais minerais e outras substâncias, destacando a necessidade de avaliação clínica e de critérios científicos para a suplementação. Outro ponto importante envolve quem pode realizar o procedimento. O Conselho Federal de Biomedicina (CFBM), por exemplo, afirma expressamente que terapia intravenosa ou intramuscular conhecida como soroterapia ou “soro da beleza” não é uma atividade permitida aos biomédicos. O que observar antes de fazer? Antes de se submeter a qualquer procedimento do tipo, a recomendação da Anvisa é verificar se os produtos utilizados estão regularizados para aquela finalidade e se o profissional possui habilitação para realizar o procedimento. Também é importante questionar qual é a indicação clínica, quais substâncias serão administradas, em quais doses e quais são os possíveis efeitos adversos. A promessa de resultados rápidos não deve substituir uma avaliação de saúde. No caso das vitaminas, mais não significa necessariamente melhor. E uma bolsa de soro apresentada nas redes sociais como caminho para beleza, disposição ou rejuvenescimento continua sendo um procedimento que coloca substâncias diretamente na corrente sanguínea — e, portanto, não está livre de riscos.