Pressões, comparações e ritmo acelerado alimentam a ‘Síndrome de Final de Ano’ (Adobe Stock) O Natal já chegou em nosso cotidiano, mesmo a mais de um mês do dia 25 de dezembro. A marcha dos dias finais do ano traz um sorriso no rosto para muitas pessoas, mas, para outras, a atmosfera natalina aciona gatilhos e pode, até, atrair problemas de saúde. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com um estudo da International Stress Management Association (Isma), 80% das pessoas economicamente ativas apresentam níveis maiores de estresse, ansiedade e até depressão no final do ano. E a causa é a chamada Síndrome de Final de Ano, também conhecida como dezembrite. Para a médica psiquiatra Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota, a síndrome não é um diagnóstico formal, mas um conjunto de sintomas emocionais e físicos que costumam se intensificar nesse período. “Ela surge pela sobrecarga mental que se acumula ao longo do ano, associada a cobranças internas e externas, como metas não alcançadas, pressões familiares e sociais, além da comparação com a vida dos outros”. Segundo ela, do ponto de vista psiquiátrico, é um período de aumento do estresse, da ansiedade e até de recaídas de quadros depressivos. “Muitas vezes, pacientes que interromperam o acompanhamento psiquiátrico ou psicológico sentem essa piora mais intensamente, justamente porque ficaram sem o suporte necessário para lidar com as emoções acumuladas”, relata. A cardiologista e professora da disciplina de Urgência e Emergência da Faculdade de Medicina da Unaerp, Fernanda Douradinho, entende que a dezembrite se liga a outro problema: a Síndrome de Takotsubo, conhecida popularmente como síndrome do coração partido. “O período, marcado por estresse emocional, excesso de tarefas e pressão social, funciona como um gatilho importante para desencadear o quadro. Essa condição cardíaca aguda imita um infarto, mas sem obstrução nas artérias coronárias. Clinicamente, causa dor no peito, falta de ar, sudorese, palpitações e, em alguns casos, queda da pressão arterial”, relata. Para ela, uma série de fatores sobrecarregam o organismo. A correria para cumprir metas, pressões financeiras, festas, conflitos familiares e longas jornadas de trabalho elevam a liberação de catecolaminas, hormônios ligados à resposta de alerta do corpo. “Em excesso, essas substâncias podem causar espasmo das artérias do coração, toxicidade nos miócitos e alterações súbitas na contração cardíaca. Além disso, hábitos típicos dessa época, como noites mal dormidas, alta carga emocional, consumo maior de álcool e alimentação mais pesada, contribuem para fragilizar ainda mais o sistema cardiovascular”, acrescenta. Dá para fugir da dezembrite Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota entende que é possível amenizar os efeitos da síndrome. O primeiro passo é reconhecer os próprios limites e não se cobrar tanto por um desempenho idealizado. Depois, é preciso criar momentos de pausa. Priorizar o autocuidado e estabelecer metas mais realistas ajuda bastante. “Outro ponto essencial é dar continuidade ao tratamento psiquiátrico (ou psicológico), caso já exista. Ainda assim é muito comum que, ao longo do ano, o paciente vá se sentindo melhor e acabe interrompendo o tratamento e o acompanhamento. E o problema é que essa interrupção faz com que ele enfrente o fim do ano muito mais vulnerável emocionalmente. Por isso, é importante retomar o cuidado o quanto antes, como forma de prevenção”, adverte. Para a médica psiquiatra, a Síndrome de Final de Ano sempre existiu, mas ganhou mais destaque nos últimos anos por causa do ritmo acelerado de vida, da hiperconectividade e das comparações constantes nas redes sociais. “Hoje, as pessoas vivem sob uma pressão, quase permanente, por produtividade e sucesso. A falta de continuidade nos tratamentos faz com que, a cada final de ano, os sintomas reapareçam com mais força, justamente quando o emocional está mais fragilizado”, complementa Ana Paula.