Psicólogos alertam que, embora o distanciamento das redes possa ser saudável, ele pode se tornar preocupante quando reflete isolamento emocional ou social mais profundo (Fernanda Luz / AT) Em um mundo cada vez mais conectado, em que momentos íntimos, opiniões e conquistas são compartilhados quase em tempo real, há um grupo que segue na contramão: os usuários silenciosos. São pessoas que têm redes sociais, às vezes há anos, mas quase nunca publicam nada. Elas observam, curtem, acompanham notícias, mas evitam se expor. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Essa postura não é rara.“Nem todos sentem necessidade de compartilhar. O uso das redes varia muito conforme o perfil psicológico, o contexto de vida e até o momento emocional da pessoa. Estudos recentes indicam que até 40% dos usuários de plataformas como Instagram e TikTok são considerados “lurkers” ( termo em inglês que descreve quem consome conteúdo sem interagir publicamente). Mas o que esse comportamento diz sobre eles? Entre a introspecção e o autocontrole Para muitos especialistas, o silêncio digital não é sinal de desinteresse, mas sim de autocontenção e seletividade. Segundo especialstas, quem evita publicar pode estar exercendo autoproteção emocional. As redes sociais são espaços de comparação constante. Alguns preferem manter distância disso para preservar sua autoestima e seu bem-estar. “Ao não postar, o indivíduo mantém o poder sobre o que os outros sabem ou pensam dele. É uma forma de proteger sua identidade, evitando julgamentos ou interpretações equivocadas.” Em tempos de superexposição, essa atitude pode ser até um sinal de maturidade emocional, representando uma escolha consciente de se desconectar do ciclo de aprovação e validação virtual. Autenticidade versus performance As redes sociais, segundo a psicologia, são ambientes que incentivam a performance de uma identidade idealizada. Likes e comentários funcionam como reforços sociais, estimulando comportamentos de exibição e busca por reconhecimento. Mas os “observadores silenciosos” questionam esse modelo. Essas pessoas, em geral, têm uma relação mais crítica com a exposição. Não querem performar, querem apenas assistir. Ela destaca que esse grupo valoriza mais a autenticidade e o consumo de informação do que a popularidade. Entretanto, o silêncio pode ter duas faces: há quem escolha não postar por equilíbrio emocional e há quem o faça por insegurança ou medo de rejeição. Alguns evitam publicar por receio do julgamento alheio, medo de críticas ou comparação com outros. Nesses casos, o comportamento pode estar ligado a traços de ansiedade social ou baixa autoestima. A pressão invisível das redes A pesquisadora norte-americana Sherry Turkle, do MIT, descreve em seu livro Alone Together (“Sozinhos Juntos”) que as redes sociais criaram um paradoxo: estamos mais conectados, mas também mais isolados emocionalmente. Quem opta por não postar nada, muitas vezes, sente essa contradição. Quer pertencer, mas sem se expor. Quer estar presente, mas de modo invisível. A chamada “fadiga digital” também tem papel importante. O excesso de estímulos, cobranças e opiniões pode levar as pessoas a um esgotamento emocional. Ficar em silêncio é, às vezes, uma forma de autocuidado. A importância de respeitar diferentes formas de presença Na visão da psicologia contemporânea, é fundamental não patologizar o comportamento silencioso nas redes. Nem todo mundo precisa se expressar online e o valor da experiência digital não está em quantas postagens alguém faz, mas em como se sente ao usar essas plataformas. O problema surge quando o silêncio é motivado pelo medo, pela sensação de inadequação ou pela comparação constante. Mas, quando é uma escolha consciente, pode representar autoconfiança e equilíbrio. Ela lembra que a vida offline continua sendo essencial para a saúde mental. As redes são apenas uma parte da vida social. Ter momentos de observação, reflexão e até afastamento é natural e saudável. O que dizem os números Uma pesquisa da empresa de consultoria DataReportal (2024) mostrou que o tempo médio gasto por brasileiros nas redes é de 3h42 por dia — um dos mais altos do mundo. No entanto, 27% dos usuários afirmam postar menos do que há dois anos, e um em cada cinco declara sentir-se cansado das redes. Entre as principais razões para postar menos, os entrevistados citaram: Preocupação com a exposição da vida pessoal (48%); Medo de julgamentos (32%); Falta de tempo (29%); Desejo de ter uma relação mais leve com a internet (26%). Quando o silêncio merece atenção