A idade do primeiro parto está ligada diretamente à tendência de sexo dos filhos seguintes, segundo o estudo (FreePik) A ciência acaba de lançar uma nova luz sobre um tema que sempre foi envolto em curiosidade, achismos e até simpatias: o que define o sexo dos bebês? Um estudo internacional publicado na revista Science Advances revela que a idade da mãe no momento do primeiro parto pode influenciar significativamente se ela terá apenas meninos, apenas meninas ou uma mistura dos dois. O levantamento analisou dados de mais de 146 mil nascimentos registrados nos Estados Unidos entre 1956 e 2015, todos de mulheres participantes dos estudos Nurses' Health, da Harvard T.H. Chan School of Public Health. A principal descoberta é que quanto mais velha a mãe for ao ter o primeiro filho, maior a probabilidade de ela ter filhos de um só sexo. Mães mais velhas, filhos do mesmo sexo Segundo os pesquisadores, mulheres que tiveram seu primeiro filho aos 28 anos ou mais apresentaram uma chance 13% maior de formar famílias com filhos apenas de um mesmo sexo — todos meninos ou todas meninas — em comparação com aquelas que deram à luz pela primeira vez antes dos 23 anos. Na prática, isso significa que há algo no corpo da mulher, relacionado à idade, que pode favorecer a fertilização por espermatozoides portadores de um cromossomo específico, seja X (feminino) ou Y (masculino). Ainda que o estudo não tenha conseguido definir com precisão os mecanismos responsáveis por essa associação, os cientistas apontam algumas hipóteses. Mudanças hormonais, alterações no pH vaginal, variações no muco cervical ou até ciclos menstruais mais longos em mulheres mais velhas podem ser fatores que contribuem para criar um ambiente mais receptivo a espermatozoides de um determinado tipo. Não é totalmente aleatório Até hoje, acreditava-se que o sexo dos filhos seguia uma distribuição puramente aleatória, como um cara ou coroa. Mas os dados indicam que essa 'moeda' pode ser levemente 'viciada' dependendo da família. Entre os participantes do estudo, casais com três meninas tinham 58% de chance de ter uma quarta menina, enquanto aqueles com três meninos tinham 61% de chance de repetir o padrão. Esse fenômeno, segundo os autores, pode ser resultado tanto de fatores biológicos quanto de decisões conscientes dos pais, como parar de ter filhos após alcançar o sexo desejado. Genética também pode interferir no placar dos meninos e meninas O estudo não parou nas estatísticas. A equipe também analisou o genoma das mães e identificou duas regiões do DNA possivelmente ligadas à repetição de um mesmo sexo entre os filhos. Um dos genes, chamado NSUN6, foi associado à tendência de ter meninas; o outro, TSHZ1, está ligado ao nascimento de meninos. A função exata desses genes ainda é incerta, mas eles podem influenciar desde a ovulação até a receptividade do útero. Outros fatores investigados não tiveram efeito Além da idade, os pesquisadores também avaliaram outras características maternas como tipo sanguíneo, altura, peso, raça e cronotipo (ser mais diurna ou noturna). Nenhuma delas, no entanto, apresentou relação estatisticamente significativa com o sexo dos filhos. O que se destaca, portanto, é mesmo a idade da mulher no momento da primeira gravidez. Limitações do estudo e próximos passos Apesar dos resultados expressivos, os autores reconhecem que o estudo tem limitações. A amostra era composta majoritariamente por mulheres brancas, norte-americanas e com nível educacional elevado, o que pode dificultar a generalização dos dados para outras populações. Além disso, o estudo não considerou fatores paternos — como idade, genética ou estilo de vida — que também podem influenciar o sexo dos filhos. Ainda assim, a pesquisa abre caminho para novos estudos sobre fertilidade e genética, e traz à tona uma nova visão sobre como a idade da mulher pode influenciar não apenas a chance de engravidar, mas também o perfil da futura família. Quando ciência e curiosidade se encontram É claro que nem todo casal está em busca de controlar ou prever o sexo dos filhos. Mas saber que a ciência começa a decifrar essas pequenas variáveis genéticas e biológicas pode ser reconfortante — e até divertido — para quem sempre se perguntou por que teve três meninos em sequência ou duas meninas tão parecidas. Se antes a resposta era um simples “coincidência”, agora há bons motivos para acreditar que o corpo da mãe pode ter tido mais influência nessa decisão do que se imaginava.