Foto ilustrativa (Freepik) Os cuidados com a saúde mental estão na ordem do dia. Especialmente para os jovens, que precisam enfrentar diversos desafios em uma fase de afirmação. Por isso, a terapia, ou psicoterapia, virou uma forte aliada para ajudar nessa caminhada cheia de obstáculos - vários deles internos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A série Adolescência (Netflix) abriu um novo debate sobre o tema. Ela conta a história de Jamie Miller, de 13 anos, acusado de esfaquear uma garota. O roteirista e produtor executivo, Stephen Graham, admitiu ter sido vítima de bullying nos tempos de escola. Já aos 20, sofreu com a depressão. Marcas que levariam qualquer jovem para o divã. “O maior objetivo na psicoterapia é ajudar a encontrar suas próprias respostas, onde o psicoterapeuta ouve, questiona e guia no processo de autodescoberta”, afirma a psicóloga clínica e neuropsicóloga Beatriz Castro. Segundo ela, colabora o modo de ser do jovem atual, com contornos mais “imediatistas, com baixíssimo limiar de frustração (ponto em que uma pessoa não consegue mais lidar com a frustração e reage de forma negativa ou desiste) e muita ansiedade, seja pela rotina extensa ou por questões ambientais e comportamentais. Vivemos numa busca frenética pela quantidade e não pela qualidade”, afirma. Beatriz acrescenta que o mundo, que se atualiza em recursos tecnológicos, moda, brinquedos e número de seguidores, faz com que quem não siga tais regras tenha os recursos emocionais evidenciados em um comportamento padrão que vai gerar adoecimento. “As pessoas estão tendo mais consciência que a ansiedade é importante e necessária. Mas, se não fizer sentido a ela, nada mudará. Ela faz parte do ser humano”. Pós-pandemia A médica psiquiatra Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota observa um crescimento na busca por terapia entre adolescentes e jovens adultos. “Isso se deve a uma maior conscientização sobre saúde mental, à redução gradual do estigma entorno da terapia, à ampliação da discussão do tema nas redes sociais e à facilidade de acesso ao atendimento on-line”, frisa. Para ela, a pandemia também teve um papel importante ao expor a fragilidade emocional por parte de adolescentes e jovens adultos nos últimos anos. “Ela agravou muitos quadros pré-existentes e trouxe novas demandas emocionais. O isolamento, a perda de rotina, o luto, a insegurança quanto ao futuro e a exposição prolongada às telas afetaram, diretamente, a saúde mental dos jovens. Muitos passaram a apresentar sintomas depressivos e de ansiedade, e até mesmo quadros de automutilação e pensamentos suicidas”. Ana Paula acrescenta que o custo de um tratamento, a falta de profissionais especializados nesta faixa etária, o tempo de espera em serviços públicos e a dificuldade de reconhecimento por parte da família ou da própria pessoa de que precisa de ajuda são obstáculos para que jovens acessem atendimento psicológico ou psiquiátrico. “O fator financeiro também é uma barreira. Muitos jovens ainda dependem dos pais e não têm autonomia financeira para pagar sessões particulares, que podem ser caras. Quando o tratamento é necessário de forma contínua, o custo se torna um impeditivo ainda maior, principalmente em casos que envolvem acompanhamento multiprofissional”. A profissional pondera, ainda, que a linguagem e a abordagem do terapeuta precisam ser adaptadas para o público jovem. Além disso, recursos digitais, como teleatendimento e aplicativos de saúde mental, estão mudando a forma do jovem fazer terapia. “A tecnologia tornou o acesso à terapia muito mais rápido e até menos constrangedor. E é no ambiente digital que os jovens se sentem mais à vontade. O modelo remoto também ajudou muito no sentido de impedir qualquer barreira geográfica. Aplicativos com técnicas de autocuidado, meditação guiada e acompanhamento emocional complementam o tratamento terapêutico tradicional”, finaliza. Redes sociais As redes sociais têm um papel ambíguo, pois, se por um lado ajudam a desmistificar a terapia, promovem informações importantes e criam redes de apoio, por outro podem gerar comparações tóxicas, alimentar padrões de perfeição e espalhar desinformação. “O impacto vai depender muito do tipo de conteúdo que é consumido e da forma como o jovem se relaciona com essas plataformas”, afirma Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota. Programas públicos O SUS oferece atendimento psicológico por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), unidades básicas de saúde e em escolas públicas. Há ainda universidades com clínicas-escola que atendem gratuitamente ou com valor simbólico, além de ONGs e projetos sociais, que também podem oferecer suporte emocional para jovens em situação de vulnerabilidade social.